“Chacrinha continua
Balançando a pança
E buzinando a moça
E comandando a massa
E continua dando
As ordens no terreiro”.
Aquele Abraço (Gilberto Gil)

Nesse ano o nosso país lembra do centenário de um dos maiores comunicadores que o Brasil já teve. É o nosso Chacrinha. Por isso o “Senta que lá vem história” vem apresentar um pouco da história deste arlequim da televisão.

Esse comunicador nasceu na cidade de Surubim, no agreste pernambucano, em 30 de setembro de 1917. Mudou-se com a família para Caruaru com seis meses de vida. Após cinco anos, a família foi para Campina Grande, na Paraíba. Por sinal foi em Campina Grande que ele toma o gosto por tocar buzina do caminhão do pai dele, e assim a buzina não iria sair mais da sua vida. Aos 15, foi estudar no Colégio Marista, no Recife. José Abelardo Barbosa de Medeiros em 1936 entrou na Faculdade de Medicina. Aos vinte anos de idade ele começa a ser locutor e ter sua primeira experiência com os meios de comunicação, na Rádio Club de Pernambuco. Após esta experiência, foi tocar bateria na Rádio.

Depois de perder um ano de faculdade por conta de uma cirurgia do apêndice, o jovem aceitou o convite para tocar em um navio com destino à Europa. De volta ao Brasil, ele desembarcou aos 22 anos na capital federal, o Rio de Janeiro. Trabalhou em várias emissoras de rádio e começou a carreira como locutor na Rádio Tupi. Em 1943, lançou na Rádio Clube Niterói o programa de marchinhas de carnaval “Rei Momo na Chacrinha”. Esse programa começou a ter muito sucesso. No fim do carnaval de 1944, Abelardo criou o “Cassino da Chacrinha”. Fez tanto sucesso que passou a ser conhecido como Abelardo “Chacrinha” Barbosa. Pouco depois, assumiu o apelido como nome artístico. No ano de 1945, trabalhou em várias emissoras de rádio apresentando o programa “Cassino do Chacrinha”. No rádio, Chacrinha foi na contramão do padrão, onde os locutores presavam pela dicção bem programada e policiamento do sotaque. O Guerreiro usa as expressões populares, voz rouca e o sotaque pernambucano seria sua marca.

Já na era da televisão nos anos 50, Chacrinha encontraria o seu maior espaço para seus programas. A sua estreia ocorreu em 1956, na TV Tupi, com quatro programas: “Festa no Arraial”, “Musical Selo de Ouro”, “Sucessos Mocambo” e “Clube da Camaradagem”. Em seguida, estreou o infantil “Rancho Alegre”, paródia aos filmes de faroeste, no qual interpretava o xerife. Também começou a apresentar a “Discoteca do Chacrinha”, na mesma emissora. No início dos anos 1960, apresentou sua Discoteca na TV Paulista, TV Rio e TV Excelsior, sempre com grande sucesso. Chacrinha foi contratado pela Globo em 1967, para apresentar dois programas: a “Discoteca do Chacrinha”, às quartas-feiras, e “A Hora da Buzina”, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”, aos domingos.

Uma frase sua que era muito citada afirmava que “Na televisão nada se cria, tudo se copia”. Alcançou grande popularidade com os seus programas de calouros, nos quais apresentava-se com roupas engraçadas e espalhafatosas, acionando uma buzina de mão para desclassificar os calouros e empregando um humor debochado, utilizando bordões e expressões que se tornariam populares, como “Teresinha!”, “Vocês querem bacalhau?”, “Eu vim para confundir, não para explicar!”, “Quem não se comunica, se trumbica!” e “alegria, alegria”, essa última utilizada por Caetano Veloso para dar nome à famosa canção tropicalista e de contestação Ditadura Militar.

No ano movimentadíssimo de 1968, com surgimento da Tropicália, ele se tornaria o padrinho do movimento que teria em seus programas os principais divulgadores. Assumido pelo tropicalismo como uma espécie de símbolo pop, foi homenageado por Gilberto Gil em seu samba de despedida “Aquele Abraço”, na partida para o exílio londrino, canção essa que destaco uma estrofe no início deste artigo. Indagado sobre o que pensava do tropicalismo, Chacrinha respondeu: “Sou tropicalista há mais de 20 anos. O que acontece é que antes a imprensa me chamava de débil mental, de maluco, de grosso”. Bom lembrar que Chacrinha foi perseguido pela censura por causa da irreverência e liberdade que as pessoas tinham no seu programa e razão de sua posição a partir do Tropicalismo em relação ao regime das casernas e ter muitos amigos artistas exilados, cansou de ir ao DOPS prestar depoimentos e ser chamado atenção.

Nesse período da Rede Globo ele teve inúmeros conflitos Boni, o chamado manda chuva da Globo que queria controlar o jeito excêntrico e espalhafatos. Mas não conseguiu. Em razão Chacrinha disse “que nunca ia fazer as vontades de um mauricinho”, seguindo na emissora com programas de grande audiência. Apesar da boa repercussão, em dezembro de 1972, voltou para a TV Tupi. Em seguida, foi para a Record e retornou para a TV Tupi. E em 1978, mudou-se para a TV Bandeirantes. Só voltou à Globo em março de 1982, dessa vez para apresentar, nas tardes de sábado, seu maior sucesso, o “Cassino do Chacrinha” e sem nenhuma interferência de Boni.

Cara e corpo de palhaço, símbolo de astro televisivo, o “velho guerreiro”, como era também conhecido, por ser um dos apresentadores mais experientes que estava em atividade, os seus programas eram um ambiente de total liberdade cênica e espírito carnavalesco. Os concursos de calouros e as apresentações de artistas eram marcados pela algazarra de um auditório que Chacrinha estimulava arremessando bananas e pedaços de bacalhau.

Nessa trajetória, Sergipe também foi valorizado muitas vezes pelos seus shows. Em sua caravana que rodavam o Brasil, aqui ele esteve em 1974, 1978 na Inauguração do Ginásio de Esportes Constâncio Vieira, em 1982, 1983, 1984 e a sua última passada pela terra de Serigy em 1985, Além de passar por aqui, nos seus programas ele fazia trocadinhos com nomes de cidades sergipanas como: Geru, Propriá, Aracaju e entre outras. Divulgou no Show de Calouros, o cantor estanciano Rogério em 1984, cantando “Estância e Folia”; a cantora itabaianense Amorosa, em 1985 cantando “De volta pro aconchego” de Elba Ramalho, e quem era sócia de carteira de seu programa, a nossa querida Clemilda que mesmo sendo alagoana, difundia Sergipe pelo país afora.

Portando podemos dizer sim que Aberlado Barbosa lançou muitos artistas como: Roberto Carlos, Raul Seixas, Angélica, Paulo Sergio e entre outros, divulgou assembleias de categorias sindicais, participou dos comícios das Diretas Já, gravou a Marchinha da Camisinha, incentivou o uso da camisinha para combate AIDS, valorizou as tradições da cultura popular, interpretou em filmes, brincou, dançou com as chacretes, entrevistou muitos brasileiros, chamou muitos jurados e deu a TV a devida homenagem ao povo brasileiro que assistia aquele carnaval o ano todo.

Mas Chacrinha nos deixou aos 70 anos, no dia 30 de junho de 1988, de infarto do miocárdio e insuficiência respiratória (Ele tinha câncer no pulmão). Mesmo assim estará sempre na memória de muitos que o assistiu e acompanhou e de várias gerações sendo um exemplo da transformação da comunicação, como ele mesmo dizia “nasci no ano revolucionário, com isso vou revolucionar a televisão”.

REFERÊNCIA:

Monteiro, Denilson & Nassife, Eduardo. “Chacrinha – a Biografia” Editora Leya Brasil, 2014.

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Discente de História na Universidade Federal de Sergipe. Estagiou no Museu do Homem Sergipano e na Biblioteca Pública Epifânio Dória

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