A progressiva privatização da Aperipê

Por Paulo Victor*
Em 19 de janeiro deste ano, nesta mesma coluna (blog no portal Infonet), finalizei um artigo afirmando: “Caso a indicação se confirme e caso Messias Carvalho aceite assumir a Fundap, o governo Jackson Barreto dará passo importante para (…) o início do processo de privatização da Fundação Aperipê. Espero, muito sinceramente, estar enganado”.
Nove dias após a publicação do artigo, a notícia estava confirmada e Messias Carvalho – até então presidente do sindicato dos empresários de comunicação – tomava posse, em 28 de janeiro, como Diretor Presidente da Fundação Aperipê.
Quase seis meses depois, vejo que, infelizmente, eu não estava enganado e a previsão que fiz naquele momento também vai se confirmando: está em curso um processo de privatização da Fundação Aperipê. Privatização não no sentido da emissora estar garantindo lucros para os seus gestores, mas do ponto de vista de mudança da concepção que norteia as rádios e TV Aperipê.
Vejamos. A principal mudança feita até aqui por Messias Carvalho foi na programação da emissora de TV. E uma mudança para muito pior. Programas com conteúdos de qualidade e formatos distintos, não vistos em outras TVs sergipanas, foram simplesmente retirados da grade.
Como “novidades”, duas foram as mais anunciadas nas redes sociais da Fundap e nos intervalos da programação: um programa sobre segurança pública, com uma carga policialesca, de desrespeito aos direitos humanos e criminalização da pobreza, o Segurança em Alerta; e um quadro de prestação de serviços, que em muito se assemelha ao estilo assistencialista de Adelson Barreto no programa Tolerância Zero, o Espaço Cidadão, comandando pelo ex-vereador Danilo Segundo.
No que diz respeito à gestão, o Conselho Deliberativo da Fundap, que já era problemático do ponto de vista da composição (por ser integrado quase que exclusivamente pela direção da Fundap e por secretários de estado), agora nem mesmo no site está listado. Teria Messias Carvalho ido na contramão do que é necessário para avançar no caráter público da Aperipê e decretado oficialmente o fim do único possível espaço coletivo de decisões da Fundap?
No campo trabalhista, a Aperipê vive uma grave situação que há muito não é devidamente enfrentada e atravessa as gestões. Messias Carvalho, que em seu discurso de posse garantiu que respeitaria os trabalhadores da Fundação, até o momento não se manifestou sobre o número elevado de cargos comissionados ou sobre a realidade dos trabalhadores com mais de 20 anos de emissora que têm salários baixos e não possuem um Plano de Cargos e Salários.
O site institucional, principal forma de acesso de parte da população à Aperipê, também passou por mudanças na gestão de Messias Carvalho. Se esteticamente o site aparenta modernidade, em termos de conteúdo representa o que há de mais atrasado. Muito do arquivo de notícias foi perdido, pouca informação sobre a programação das emissoras de TV e rádios, nada sobre informações de interesse público, como gestão, projetos e balancetes financeiros.
Com essas mudanças, nos primeiros meses de gestão de Messias Carvalho, a Fundação Aperipê vai abandonando o seu caráter público, se distanciando do que seria um projeto de comunicação pública e se aproxima do modelo de uma empresa de comunicação privado-comercial. De péssima estrutura e qualidade, vale frisar.
 
Paulo Victor é Jornalista, mestre e doutorando em Comunicação e Política
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