A Regra de qual jogo?

Por Joaquim Vela

Chegou ao fim a saga da facção criminosa e dos justiceiros de A Regra do Jogo. Como de praxe, os segredos são descobertos, as máscaras caem, a verdade vem à tona. O cerco se fecha para o grande cabeça da organização criminosa, chamado de Pai, e ele, Gibson (José de Abreu), sequestra a família se revelando louco, fascista. Surpreende a todos com seu comportamento aterrorizador, claro, pois era um homem acima de qualquer suspeita, rico, empresário, avô presente, apesar de péssimo pai e marido. O clima esquenta, há uma troca de tiros, o chefe se esconde no seu escritório particular, abre o cofre, pega bolos de notas de dólares, uma arma mais potente, ameaça fugir, mas acaba sendo pego de surpresa e é assassinado. Perde o jogo.

Mas quem acompanhou essa cena e é sensível ao atual cenário político que estamos vivendo, deve ter ficado com a pulga atrás da orelha. Meio a cena de desespero, com a arma punhada na cabeça de uma das filhas, o Pai justifica as razões de ter dedicado toda uma vida ao crime e à violência: queria salvar o Brasil da corrupção. Para acrescentar, ele acusa o neto de comunista e chama os empregados de favelados. O que estaria por trás desse texto? Qual é o jogo a que ele se refere? E quais são as regras para jogar esse jogo? O que significa salvar o país da corrupção através do crime? Porque o chefe é um dos personagens menos suspeitos? Porque estimular com sua história a desconstrução de um líder bom?

Sim, as novelas são obras de ficção e que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Mas diante desse clima em que os limites que sustentam as nossas instituições políticas podem ser ultrapassados, o equilíbrio entre os poderes dá sinais de instabilidade e a mídia veicula suspeitas como espetáculos, há de se convir que essas perguntas não são especulativas ou persecutórias. Eu não tenho as respostas, infelizmente, até porque o momento é de incertezas. É preciso estar atento ao que se vê na telinha, sobretudo nas novelas, com suas intenções declaradas de “representar” a vida cotidiana. E com isso, acabam tendo o poder de construir verdades, mesmo sendo inverdades. A gente pode ser menos tolo do que elas pensam.

Me ajude a refletir sobre isso? Fale comigo no quimvela@brasildefato.com.br

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