A aposta da novela das 21h

Mesmo não sendo um sucesso estrondoso, Velho Chico manteve os índices de audiência, mas principalmente, deu ares e tons diferentes para o horário nobre, contribuindo para elevar o nível de discussão das novelas e do público, coisa rara nos últimos tempos na TV

Foto: Divulgação

Por Felipe Marcelino*

Chega ao fim Velho Chico. Com autoria principal de Benedito Ruy Barbosa, a novela seria exibida no horário das 18 horas, mas, numa aposta da direção artística da Globo, foi exibida às 21 horas, no horário de maior audiência da emissora. Há muitos anos, os folhetins desse horário exibiam tramas que se passavam no eixo Rio – São Paulo, com histórias quase iguais.

Ambientada no interior baiano, às margens do Rio São Francisco, a novela apresentou com ousadia os seus temas e personagens. Não passou despercebido do público o tom político e o levantamento de algumas questões sociais que, não poucas vezes, deixaram em segundo plano as clássicas aventuras, dilemas amorosos e as cenas quentes. Vale lembrar o destaque do casal composto pelo vereador Bento dos Anjos (Irandhir Santos) e a professora Beatriz (Dira Paes). Os dois fizeram duros enfrentamentos aos poderosos do município de Grotas. Na última semana, Beatriz foi eleita prefeita e Bento reeleito vereador, no melhor estilo “o povo no poder!”.

Outro tema importante foi a exploração do solo. Se de um lado o coronel Saruê (Antônio Fagundes), com um modelo de produção extremamente danoso à terra pelo uso de agrotóxicos e explorador dos pequenos produtores; do outro seu neto Miguel (Gabriel Leone) se junta à família dos Anjos para desenvolver um inovador modelo de produção, baseado na agroecologia, em parceria com os pequenos produtores.

Além das inovações na parte estética, na fotografia das cenas, nos figurinos, na maquiagem ou na trilha, marca forte do diretor Luiz Fernando Carvalho, o acento político do enredo cumpriu a missão de trazer novidades para as tramas das 21h. Mesmo não sendo um sucesso estrondoso, Velho Chico manteve os índices de audiência, mas principalmente, deu ares e tons diferentes para o horário nobre, contribuindo para elevar o nível de discussão das novelas e do público, coisa rara nos últimos tempos na TV.

*Felipe Marcelino é professor de filosofia

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