Chegou ao último capítulo a novela da Rede Globo “A Força do Querer”, escrita por Glória Perez. Milhões e milhões de pessoas acompanharam a trama, que misturava histórias reais e ficção. A novela cumpriu um importante papel social ao levar temas como a identidade de gênero para a casa dos brasileiros. Mas no seu tema central, a violência, a novela foi superficial e não mergulhou na força da realidade.

Enquanto a polícia se preparava para subir o morro, a major advertia para todos policiais tomarem cuidado. “Feridos só do outro lado, afinal eles escolheram essa vida”, disse Jeiza. Durante toda a trama, o crime é descrito simplesmente como uma escolha de vida. Um caminho que o criminoso quis seguir em busca de um glamour do tráfico, exagerado pela ficção.

A Bibi da novela escolheu o amor do chefe do tráfico ao invés do amor de Caio, futuro Chefe da Secretaria de Segurança Pública. Fez porque queria e afirma que gostou. A Bibi da vida real adverte que “para o jovem do morro a porta que está aberta é a do tráfico. Ela não exige que seja bonito, que tenha diploma, que seja bem arrumado… Outras opções existem, mas estão muito longe”.

Glória Perez disse em entrevista que sua novela dá apoio para que novas leis sejam aprovadas para reprimir o crime. Na década de 90, ela liderou uma campanha para transformar o homicídio em crime hediondo, com o apoio da grande mídia. Porém, a mesma mídia que produz belas novelas é a primeira a não só ocultar como semear as raízes da violência. A principal forma de combater o crime é combatendo as desigualdades sociais. Mas é a lógica da repressão que é transmitida nas telinhas.

Conforme apontam os estudos, países com menores desigualdades sociais sofrem muito menos com a violência. Ou seja, vamos muito mal. Em pesquisa recente da ONU, o Brasil foi apontado como o décimo país mais desigual do mundo. Os nossos índices sociais despencaram assustadoramente no último ano.

Enquanto isso, o mesmo canal televisivo que exibia “A Força do Querer” prestava apoio para o congelamento de gastos com saúde e educação. Também fazia campanha pelo fim de direitos trabalhistas e ataques à aposentadoria. Na semana passada, vimos um decreto absurdo de Michel Temer afrouxar as leis contra o trabalho escravo. A medida recebeu apoio em pleno STF. O ministro Gilmar Mendes defendeu o decreto e ainda fez piada, alegando que trabalhava demais e nem por isso se achava escravo.

Não basta a força do querer de cada um para superar a violência. As “Bibis” que estão presas não são as que seguiram o caminho do crime em busca de um fetiche. A busca de uma vida digna e, inúmeras vezes, a busca da sobrevivência é o que está por trás da criminalidade.

O tráfico é um grave problema social. Leva terror e sangue à população que o rodeia, da mesma forma que o Estado que a oprime. Somos um país de milhões e milhões de trabalhadores que merecem todo o reconhecimento por batalharem pelo seu pão de cada dia sem levar mal a ninguém. A violência que sofremos diariamente será superada quando todos nós conseguirmos superar a posição de meros espectadores do projeto que nos apresentam.

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