“Em tempos de crise sociais os pobres perdem o pouco que têm, os competentes são afastados de seus cargos – e os inocentes vão para o paredão”. [1]

Millôr Fernandes dizia que a ironia é o último refúgio dos oprimidos. Então, hoje, vamos de ironia. Em 17 de abril de 2016, o mundo observou aquele nonsense da votação do impeachment. E quando os insensatos se tornam exclusivos na representação dos Poderes, a insensatez é que prevalece.

De lá pra cá, já conseguiram desfigurar a dita Constituição Cidadã de 88 e temos um país regido por um “grande acordo nacional”, simbolicamente liderado por Michel Temer (PMDB/SP), Rodrigo Maia (DEM/RJ), Eunício Oliveira (PMDB/CE), Romero Jucá (PMDB/RR), André Moura (PSC/SE), Gilmar Mendes & Cia. Sim, com o Supremo, com tudo. Nesse revés, já aprovada a Emenda Constitucional 95, que limita por 20 anos os gastos públicos, de modo que bilhões são assegurados aos bancos a título de pagamento dos juros da dívida pública. Crime maior contra a nação, não há. Diante da terceirização irrestrita, a redução salarial e o aumento dos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais são as consequências já esperadas. Com o fim da previdência social, a penúria dos pobres se acentua. Sem emprego e sem renda, no mundo capitalista, o “hálito de vida” se esvai e apressa-se o destino dos desvalidos: “tu és pó e ao pó tornarás”.

Nesse aniversário do impeachment, o noticiário só tem abordado as delações da Odebrecht. No âmbito político, a lista de Fachin é divulgada também para aprofundar o desinteresse sobre a política. É para causar nojo e reforçar o “nada presta”. E mais: sobressai-se no momento em que se evidencia a discussão sobre a reforma política. Nem é preciso comentar qual o caráter de uma reforma política promovida pelo Congresso que ainda é caracterizado pelos “300 picaretas com anel de doutor”. Talvez o lema da reforma política seja: “Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal”.

No âmbito jurídico, a comprovação da “caguetagem” é fundamental para as condenações. Nesse contexto, não é possível precisar agora detalhadamente quais corruptos e corruptores serão condenados. Mas uma coisa é certa: as condenações são subjacentes à política. Os vazamentos de documentos das investigações da Lava-jato são exemplos claros da submissão do Judiciário à agenda política. Afinal, “Todo Juiz, mergulhado num julgamento de corrupção, sofre um impulso pra cima igual ao peso dos corruptos por ele inocentados”, o que talvez explique a predileção de Sérgio Moro pelo lado dos “donos do poder”.

É por isso que Millôr Fernandes, de olho na nossa história, ironizava: “Brasil, condenado à esperança” ou “[…] o Brasil tem um enorme passado pela frente”. Fato é que, pelos corruptos e corruptores, pela FIESP, pela Rede Globo, por Eduardo Amorim (PSDB/SE), Valadares (PSB/SE), Laércio Oliveira (Solidariedade/SE), João Alves Filho (DEM/SE), Maria do Carmo (DEM/SE), enfim, pelos golpistas de Estado, o Brasil continuará condenado, perpetuamente, à esperança. Condenado a nunca se tornar uma nação soberana, pela qual Darcy Ribeiro e outros tantos lutaram.

Para afastar essa histórica condenação, o caminho não é outro senão o da luta. As mobilizações só têm aumentado. No próximo dia 28 de abril de 2017, haverá a greve geral contra o governo Temer, contra a reforma trabalhista e contra a reforma da previdência. O engajamento e organização do povo nessa agenda anti-retrocesso são imprescindíveis para passarmos de país condenado à esperança no futuro a uma nação soberana de fato construída desde já.

[1] As ironias entre aspas são todas de Millôr Fernandes (1923-2012).

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