Cabrita: a vida na corda bamba

Foto: Motu

CabritaManhã de 4 de dezembro de 2015. Mais um dia em que as mais de 200 famílias que vivem no Povoado Cabrita, em São Cristóvão, acordam com a presença de dezenas de carros, agentes e armas da Polícia Militar do Estado de Sergipe. É um roteiro já conhecido para essas famílias, reflexo de uma vida de incertezas, da dúvida permanente: será que amanhã irão chegar e nos retirar das nossas casas e da nossa terra? Será que ainda hoje? Quando?

Dormir imaginando que no dia seguinte pode-se ver desconstruído tudo o que se levou anos para erguer é profundamente desumano. E não apenas o que se ergueu materialmente, mas também relações, afetos, sentimentos. Não apenas das pessoas entre si, como também das pessoas com as plantas, os animais, a água, enfim, com a natureza.

Diferente do que ocorreu em novembro do ano passado e em outras oportunidades, dessa vez não houve truculência policial. Uma negociação mediada pela Defensoria Pública garantiu que as famílias tivessem tempo de organizar a saída. Ainda assim, a insistente presença do aparato de segurança do Estado já revela qual concepção o poder público em Sergipe tem sobre o direito à moradia.

Sem qualquer preocupação com o presente e o futuro das famílias que vivem na Cabrita, há três semanas do Natal, esse é o presente que o Estado mais uma vez lhes dá: a incerteza, a corda bamba, a vida sem saber o que será do dia seguinte…Por ora, a beira da estrada os abriga novamente.

Paulo Victor Melo, jornalista. Texto escrito em 04/12/2015.

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