A crise institucional e o avanço da luta trabalhista no Brasil

Por Saulo H. S. Silva

Conforme cantara um jovem artista brasileiro na década de 1980, “o tempo não para”. A vida política também está sujeita ao tempo, ao tempo que não para e que frequentemente “repete o passado”. Do mesmo modo, a experiência que temos acerca dela também está sujeita ao tempo e, por isso, podemos empregar a memória histórica para antecipar a macaqueação futura dos fatos de outrora. No entanto, é difícil ser leitor desse contexto caótico pelo qual tem passado o Brasil porque os parâmetros da discussão política foram completamente nivelados pela balança das redes sociais, das ideias que não correspondem aos fatos, das teses mirabolantes a serviço de salvar ou condenar; mas sem comprometimento com a verossimilhança e a probabilidade.

Para se compreender essa realidade política de forma mais verossímil, é preciso identificar as razões, fazer ciência, visitar os fatos enquanto dados e especular o mínimo possível. Afinal, a ciência política trabalha com fatos, acontecimentos e previsões aproximadas, além disso, ela pode recorrer à história e perceber a tendência de certos encadeamentos de fatos que se repetem. Por exemplo, crises democráticas conduzem à situação de autoritarismo contra a suposta “licenciosidade” do povo. Assim, seria uma espécie de ciclo: liberdade conduz ao autoritarismo; autoritarismo conduz à liberdade. O fato de boa parte da população ter concebido o atual presidente como restaurador da moralidade perdida é uma evidência dessa tese. Como Marx afirmava no atualíssimo “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, “a ralé da sociedade burguesa constitui a sagrada falange da ordem e o herói Crapulinski se instala nas Tulherias como salvador da sociedade”. A história do herói da burguesia, que por si só já é uma tragédia, se repente indefinidamente como farsa, como macaqueação e niilismo.

Há pouco mais de um ano, quando a crise política se agravou e o Gov. Dilma Rousseff (PT) se perdeu com ataques de seus próprios aliados, ficou claro que a sua queda traria algo pior e sem legitimidade. Pois bem, com o estabelecimento do governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB), novas polêmicas surgiram, crises contínuas têm sacodido Brasília e envergonham o país perante a opinião pública nacional e internacional. Ataques covardes contra a população mais pobre são comemorados com jantares opulentos e regados ao cinismo e à ganância. Delações e mais delações dos comparsas vêm à luz do dia, quase todos os dias. Não se pode fazer tabula rasa da política, isso é muito inglório. As informações comprometem todos os partidos da burguesia, a própria burguesia empresarial e financeira, e parte do judiciário. Diante de tudo isso, não é de se estranhar a instabilidade política que estamos presenciando e nem o fato que Temer e o Congresso estão usurpando o povo com o próprio voto popular.

Toda a malformação da consciência que impera na multidão faz parte de um plano mais geral pelo qual as operações fundamentais da mente do trabalhador são concebidas como limitadas e sem necessidade de serem desenvolvidas. Entretanto, a possibilidade de problematizar e compreender a realidade (natural e social) de forma mais crítica, desenvolver noções de justo e de injusto são elaborações fundamentais para a vida em sociedade, as quais não se adquirem com o cálculo vulgar e nem com o simples letramento.

É fundamental impulsionar o desenvolvimento da capacidade de analisar a realidade sobre o ponto de vista valorativo porque o simples raciocínio calculista e preso à utilidade, porém despido de qualquer reflexão problematizadora, pode nos levar ao abismo da destruição de nosso próprio mundo. Como parte da natureza, a política também foi tomada por esse raciocínio instrumental fruto da orientação burguesa que impera na ideia de justiça social.

Aqui se observa simplesmente o que produz riqueza, lucro e desigualdade. A educação não é importante, só é preciso saber ler o essencial haja vista que a grande maioria da população nasce necessariamente para o trabalho e os transtornos da vida difícil, e uma minoria diminuta para a opulência e o descaso.  Quando empregamos esse modelo de sociedade com a espécie degenerada de democracia republicana que existe no Brasil, o resultado é o que estamos vivenciando, a saber, um cartel político-empresarial.

A tese segundo a qual o esclarecimento e a justiça social seriam coisas indissociáveis foi deixada de lado entre nós já faz alguns anos. E não é muito fácil entender porque esse debate desapareceu do contexto mais amplo de boa parte da esquerda e centro-esquerda brasileira, mas é fato que o petismo alicerçou no Brasil a ideia pela qual a justiça social estava submetida ao consumo proporcionado pela oferta de crédito. Terrível engano, na primeira crise a justiça insipiente se despedaçou e o povo, idiotizado por conta de uma aculturação total, cada vez menos consegue compreender o que está acontecendo, o que está perdendo e as razões do fim do próprio crédito. Enfim, foi desenvolvida a ideia que o mau gosto estético era bom simplesmente por ser algo que estava na cultura de certos setores excluídos da sociedade. E tudo foi para a vala comum da banalidade, do efêmero e da brutal alienação social. Se a internet deu margem à vulgarização da idiotia, o noticiário da Rede Globo se aproveita eternamente dessa condição para continuar praticando atos criminosos. Muitas vezes, esses meios de comunicação deformam a multidão com a ideologia barata segundo a qual vagabundo é aquele que luta pelos seus direitos. Assim, enquanto os juízes detonam o Brasil, os políticos avacalham os direitos e roubam a nação com a ajuda dos empresários, boa parte do povo não compreende o que está acontecendo!

Por sua vez, não se pode deixar de dizer que todo esse conteúdo macabro foi determinante para que aos poucos a consciência do povo pudesse voltar a iluminar o futuro e se exteriorizar em diversas formas de lutas políticas. Ocupações estudantis, paralisações e greves de diversas categorias tomaram conta do Brasil; e o resultado do conjunto desses acontecimentos foi a vitória dos trabalhadores com o sucesso da Greve Geral de 28/04/2017. Motivos para paralisar o Brasil no dia 28 existiam de sobra, são várias as medidas impopulares que o governo visa impor da noite para o dia, a toque de caixa e sem nenhuma discussão mais ampla com a sociedade civil. Em outras palavras, uma atitude equivocada por princípio porque nega de saída o valor dialógico de toda democracia. Além disso, tal atitude rompe com qualquer possibilidade de virtude política tendo em vista que o orçamento da União não foi discutido, ninguém falou dos juros da dívida pública, nem dos sonegadores ou das empresas e bancos que devem fortunas à previdência. A situação é grave, o governo esconde as contas e quer explorar ao máximo a situação do povo trabalhador, enquanto isso tem distribuído isenções de impostos e conferido descontos da dívida com a previdência para entes privados e públicos. Em outras palavras, o rombo está nos milhões gastos com propaganda, na continuação dos “mensalões”, dos financiamentos e favorecimentos à burguesia empresarial e financeira.

Sobre isso, é preciso questionar a quem interessa a PEC 55, a reforma da previdência, as mudanças do ensino médio, a reforma trabalhista, a terceirização irrestrita, a eleição de Alexandre de Moraes para o STF…? Como diria Shakespeare, “e o novo delegado que está substituindo o duque […] acredita que o público é um cavalo que o governante monta para que fique certo de que tem um senhor” (Medida por medida). Em outras palavras, estamos caminhando para uma situação de desobediência civil a um governo que, a começar pelo próprio líder, é totalmente composto por figuras aberrantes. Na cabeça de um sujeito como Michel Temer só deve haver preconceito, ódio e falso moralismo. E assim, o Brasil tem seguido ao sabor das crises, dos cortes de investimentos, das gravações, delações, propinas, da exploração dos trabalhadores, das rebeliões, decapitações, e ao som das “autoridades” declamando absurdos. Desconfiem dos paladinos da moralidade, muitas vezes, são hipócritas metidos na lama, larápios e plagiadores!

Com efeito, estamos diante de um quadro de instabilidade política avançada, o republicanismo brasileiro de araque e muito mal resolvido não possui estruturas para segurar uma crise com tal envergadura por mais tempo. Essa crise foi aprofundada com os últimos escândalos envolvendo o Presidente Michel Temer e o Senador Aécio Neves, situação que permite afirmar que existe um verdadeiro cartel político-empresarial, cujos princípios dessa bandidagem generalizada são a manutenção dos mesmos grupos no poder, a garantia do lucro exacerbado e a continuidade dos favorecimentos aos detentores do grande capital. Eis então que a pauta de uma nova eleição (Direta Já!) consiste apenas em uma forma de tentar nova sorte, de se lançar novamente à fortuna e uma maneira de escapar dessa quadrilha de larápios. De qualquer forma, a eleição em um modelo democrático degenerado como o nosso não resolve absolutamente nada, ainda mais com um nível de consciência política tão reduzida no conjunto da sociedade. E sem virtude política qualquer ideologia vai para a vala comum da degeneração. Dessa feita, o problema mais urgente do Brasil não está simplesmente na ideologia política e nem em questões que o jargão “economiquês” visa elucidar, mas simplesmente na ausência de virtudes políticas tanto do ponto de vista da prática quanto no que diz respeito à finalidade da vida em sociedade.

Em uma situação dessa natureza, nenhuma justiça política próspera porque toda a produção do país serve apenas para manter uma estrutura podre, na qual os milhões e bilhões, produzidos com o suor do trabalhador, são sangrados para alimentar um sistema monstruoso que empobrece e embrutece o próprio povo gerador da riqueza. Enfim, cenário triste, lamentável e decepcionante! Porém, a esperança advoga que os recentes momentos de reorganização da classe trabalhadora por meio de atos de grande envergadura possam fazer avançar a consciência trabalhista nas mais diversas categorias. Por isso, voltando ao início do texto, o tempo não para, mas é preciso que futuro não repita o passado!

Saulo H. S. Silva é Doutor em Filosofia e Professor da Universidade Federal de Sergipe

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