O “Cavalo de Troia” do Impeachment

“A política ama a traição, mas abomina o traidor”. A frase de Brizola trata de episódios constantes no mundo da política. A busca pelo poder e pela salvação pessoal e econômica motivaram traições históricas no Brasil e no mundo. No entanto, aqueles que traíram, por mostrarem sua baixa confiabilidade, dificilmente conseguiram alcançar o prestígio desejado.

Joaquim Silvério dos Reis, um português que vivia no Brasil Colônia, era coronel da cavalaria, fazendeiro, proprietário de minas de ouro e estava falido devido aos altos impostos da coroa portuguesa. Isso o levou a participar do movimento que ficou conhecido como Inconfidência Mineira, que tinha como objetivo libertar o Brasil do regime colonial. Contudo, em 1789, ele delatou o movimento ao governador de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, em troca do perdão de suas dívidas e de alguns outros privilégios. A traição levou todos os Inconfidentes à prisão e ao posterior enforcamento de Tiradentes. A imagem de traidor perseguiu Silvério dos Reis durante o resto da sua vida e até após a morte: seu túmulo foi destruído por populares.

De lá pra cá, diversos casos de traição ocorreram e continuam ocorrendo no cenário político. A conjuntura acelerada da construção do golpe no Brasil, que desembocou na abertura do processo de impeachment de Dilma, expôs diversos parlamentares que se construíram e cresceram em aliança com os governos do PT, mas que neste momento se desvincularam e votaram favoráveis ao processo que afastou a Presidente.

Em Sergipe, os casos dos Senadores Amorim e Valadares são simbólicos. Ambos votaram à favor do afastamento de Dilma depois de comporem a base aliada da Presidente e do ex-governador Marcelo Deda.

Amorim teve uma guinada nas pesquisas eleitorais de 2010 após a vinda de Lula para Sergipe, na qual ele fez um grande chamado para o voto em Amorim e Valadares na disputa pelo Senado. Amorim conquistou uma das maiores votações já tidas para o cargo de Senador em Sergipe (625.959 votos, equivalente a 33,65% dos votos válidos). Nas Eleições de 2014, Amorim rompeu com o PT, apoiou Maria do Carmo para Senadora e Aécio Neves para Presidente, e agora está com o golpismo.

Valadares, que recebeu 476.549 votos (25,52%) e também foi eleito Senador em 2010, defendeu Lula em diversos momentos. Através dessa aliança se fortaleceu, movimentou emendas parlamentares e construiu nomes de referência da política sergipana (como o seu filho, Deputado Federal e futuro candidato à Prefeito de Aracaju, Valadares Filho). O PSB, durante os dois governos Lula e grande parte do primeiro mandato de Dilma, foi base aliada do PT. Em 2013, o partido de Valadares rompeu com o Partido dos Trabalhadores e lançou candidatura própria para a presidência com Marina Silva (após a morte de Eduardo Campos), apoiou Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014 e votou a favor do impeachment contra Dilma.

Nacionalmente, temos como personagem principal do golpe o traidor-mor Michel Temer, que construiu o rompimento do PMDB através de supostos vazamentos de declarações e de uma carta e, posteriormente, através de uma convenção do seu partido que durou 3 minutos. Michel Temer assume como “presidente” interino, tendo como programa de governo o documento “Uma Ponte para o Futuro” — muito similar ao programa defendido por Aécio Neves nas eleições de 2014 — que propõe uma série de mudanças na política econômica brasileira. Vale destacar trechos do documento para entendermos o caráter do golpe:

“Nos últimos anos é possível dizer que o Governo Federal cometeu excessos, seja criando novos programas, seja ampliando os antigos”. (…) “Nosso desajuste fiscal chegou a um ponto crítico. Sua solução será muito dura para o conjunto da população, terá que conter medidas de emergência, mas principalmente reformas estruturais.” (…)“É indispensável que se elimine a indexação de qualquer benefício ao valor do salário mínimo.” (…)“É necessário em primeiro lugar acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação” (…)“Na área trabalhista, permitir que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais”. (…) “É preciso introduzir, mesmo que progressivamente, uma idade mínima que não seja inferior a 65 anos para os homens e 60 anos para as mulheres, com previsão de nova escalada futura”.

O programa, que já começou a ser aplicado no país, é baseado em uma grave retirada de direitos constitucionais, corte de programas sociais e entrega da economia para a iniciativa privada internacional. Um verdadeiro “Trampolim para o Abismo”.

Michel Temer entrou no Governo como um Cavalo de Troia que veio para trair não só Dilma, mas o povo brasileiro. Se Brizola estava certo, a abominação contra Temer não será tardia.

1 COMENTÁRIO

  1. Dilma e o PT quem traiu o Brasil, mentindo, escondendo a real situação. Quebraram o país que estava começando a ser grande. Lula mesmo a reclamava por não conversar com o parlamento. Todos países precisão reformar a previdência. Como defender um governo inconsequente desse?

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