O professor e pesquisador Edvaldo Alves de Souza Neto lançou seu primeiro livro em agosto de 2017. Em entrevista ao portal Expressão Sergipana, o historiador sergipano contou um pouco de sua trajetória e dos principais pontos da sua obra. “Saindo das senzalas, mas não da história: libertos em Sergipe no pós-abolição (1888-1900)” foi publicada pela Editora UFS no formato e-book e está disponibilizada de modo gratuito pelo site da editora.

O livro é fruto de sua pesquisa no mestrado do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe (UFS), sob a orientação do Prof. Petrônio Domingues. A obra relata a trajetória coletiva e individual dos ex-escravos libertos e seus descendentes no cenário sergipano, logo após a abolição da escravatura com a Lei Áurea no dia 13 de maio de 1888.

O escritor apresentou alguns motivos que lhe incentivaram a escolher esse objeto de estudo e período histórico. “Como a maioria das pesquisas históricas sobre a História e Cultura Afro-Brasileira em Sergipe se encerram no ano de 1888, centrando-se no período da escravidão, quis evidenciar que também é importante estudar os anos subsequentes à abolição; que os negros “saíram das senzalas, mas não da história””, afirmou.

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Um característica marcante do livro é o estudo específico sobre os impactos do pós-abolição em Aracaju. Com isso, Edvaldo explica. “Como tive um foco maior no cenário Aracajuano, percebi o quanto essa população liberta foi fundamental para o crescimento da recém capital, Aracaju. Na época da abolição, Aracaju havia completado três décadas de existência, cidade muito jovem. E, sem sombra de dúvidas, a população africana e afrodescendente pintou o seu modo de ser, pensar e agir nas ruas da cidade”, conclui.

Sobre como sua obra contribui para o fortalecimento da identidade racial, Edvaldo aponta que “é de suma importância estudar os desdobramentos da escravidão, primordial para impulsionar políticas públicas de reparação, no entanto, é um erro gravíssimo achar que o negro só tem importância na história enquanto escravo. Assim, as discussões do pós-abolição possibilitam repensar a presença e a contribuição africana e afro-brasileira na história do Brasil para além da escravidão, de modo a contribuir na luta contra o racismo; longe de serem vítimas da história, os libertos e seus descendentes foram sujeitos partícipes não só da nossa cultura, mas também das outras esferas da sociedade brasileira”, apontou o historiador.

Confira a entrevista na íntegra:

Expressão Sergipana: Edvaldo, qual é sua história de vida? Como você se tornou estudante de história? E como se desenvolveu sua formação acadêmica até o lançamento do seu primeiro livro?

Edvaldo Alves: Antes de qualquer coisa, agradeço o espaço e interesse do portal Expressão Sergipana por divulgar a pesquisa que acabo de publicar. É muito importante o trabalho que vocês têm desempenhado na divulgação do conhecimento. Bem, eu sou oriundo da escola pública e como muitos dos meus colegas que optaram pelo magistério, tive bons professores de História na minha formação. No antigo Colégio Estadual Gov. João Alves Filho (hoje Centro de Excelência Professor José Carlos de Souza), onde estudei, gostava muito das aulas da professora Josefa; eu ficava impressionado como ela conseguia organizar as ideias com tamanha facilidade e isso me motivava bastante. Também tive aulas em um cursinho preparatório com o professor Jorge Marcos, outra fonte de inspiração. Então, desde cedo, eu já sabia o que pretendia cursar. Fiz vestibular e consegui entrar na Universidade Federal de Sergipe (UFS) no ano de 2009. O início foi um pouco complicado, porque eu trabalhava à tarde como jovem aprendiz no Banco do Nordeste e ia para universidade à noite; era uma rotina cansativa. Foi quando resolvi se concentrar nos estudos e entrei no Programa de Educação Tutorial (PET) do Departamento de História (DHI/UFS). O PET foi um divisor de águas na minha formação acadêmica, onde passei a trabalhar e aprender com ótimos profissionais como: o prof. Dilton Maynard, tutor do programa à época e que me ensinou (e até hoje me ensina) muito; o prof. Carlos Liberato, com quem iniciei no universo da pesquisa; o professor Itamar Freitas, meu orientador na pesquisa monográfica que apresentei em 2014. Por questão de identidade, minha avó paterna era adepta do Candomblé e meu bisavô foi ex-escravo, eu sempre me interessei pela temática africana e afro-brasileira, enquanto negro, sempre quis saber sobre minha história. A primeira pesquisa que desenvolvi foi sobre a imagem do negro na historiografia sergipana sob orientação do prof. Carlos Liberato. Em seguida, sob orientação do prof. Itamar Freitas, passei a analisar como a História e a Cultura Afro-brasileira aparecia nas Propostas Curriculares Nacionais, uma discussão mais voltada ao Ensino de História, tema da minha monografia. Foi quando conheci o professor Petrônio Domingues, que tinha acabado de voltar de um Pós-Doutorado nos EUA, e ele me apresentou esse campo do pós-abolição; o quão importante e desafiador era pensar a história afro-brasileira para além do período escravista. Eu fiquei encantado pelo tema, até então, nunca havia parado para pensar nisso. Ele aceitou me orientar em uma pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Sergipe (PROHIS) e acabei investindo no tema, com o interesse em inserir o contexto sergipano nessa discussão. Do resultado dessa pesquisa de mestrado, foi que originou o livro. Nesse período, também pude fazer parte do projeto “O negro no pós-abolição em Sergipe (1888-1900): trabalho, família e lazer” coordenado pelo prof. Petrônio Domingues com o objetivo de desenvolver o campo de pesquisas sobre o pós-abolição em Sergipe por meio da digitalização e divulgação de fontes históricas salvaguardadas no Arquivo Geral do Judiciário do Estado de Sergipe (AGJES). Tal projeto, além de mim e do prof. Petrônio, também contou com a participação de outras duas pesquisadoras, Claudia Domingues e Selma Santos.

Expressão Sergipana: Em “Saindo das senzalas, mas não da história: libertos em Sergipe no pós-abolição (1888-1900)”, porque você escolheu esse objeto de estudo e período histórico?

Edvaldo Alves: Até a graduação, eu não conhecia nada do pós-abolição. Como disse na resposta anterior, o primeiro a me apresentar essa discussão no DHI/UFS foi o prof. Petrônio Domingues. A gente conversava muito sobre o tema e, como ele já é uma referência brasileira nesse campo, tive a sorte de dialogar e aprender com alguém extremamente qualificado. Ele me apresentou várias pesquisas sobre o fim do cativeiro no Brasil e nas Américas, momento em que aprendi sobre a situação dos libertos, das libertas (ex-escravizados) e seus descendentes logo após a abolição da escravatura, ou seja, no pós-abolição, que no Brasil, entendo ser a partir da Lei Áurea de 13 de maio de 1888. O meu interesse era estudar esse evento, não na perspectiva da princesa Isabel, e sim na perspectiva dos beneficiados pela lei, por isso passei a investigar como esses libertos buscavam, ao seu modo, se inserir na sociedade da época. Pensei em começar a pesquisar já no imediato pós-abolição, por isso iniciei no ano de 1888 até o fim do século XIX, em 1900. Como a maioria das pesquisas históricas sobre a História e Cultura Afro-Brasileira em Sergipe se encerram no ano de 1888, centrando-se no período da escravidão, quis evidenciar que também é importante estudar os anos subsequentes à abolição; que os negros “saíram das senzalas, mas não da história”.

Expressão Sergipana: O que o seu livro traz de novo para a História de Sergipe? 

Edvaldo Alves: Penso que o tema por si só já é algo novo para historiografia sergipana. Todavia, podemos mencionar alguns pontos. Durante muito tempo, acreditava-se que a situação dos afro-brasileiros nos anos posteriores à escravidão, só poderia ser explicada por meio do entendimento do período escravista. Deste modo, os interpretando por uma perspectiva analítica diferente da deles próprios, fazia-se uma ligação quase que natural entre escravidão e pós-abolição, e desse modo, justificava-se a posição inferior dos africanos e afrodescendentes na sociedade pós-escravista por meio da inadaptação desses sujeitos ao mundo dos livres. O fim da telenovela Sinhá Moça (2006), da TV Globo, nos dá uma representação visual desse processo que acabou se cristalizando no senso comum. O que vemos naquela cena final são ex-escravizados sem planejamento algum, totalmente despreparados para a vida em liberdade. Eles, carregando alguns poucos pertences ou apenas com a roupa do corpo, saem em grande quantidade das fazendas em busca de um destino incerto, momento em que somos tentados a despejar nas favelas e periferias brasileiras essa parcela de migrantes. Como se essa tivesse sido a única realidade de todo ex-escravizado no Brasil. Hoje, com a criação do campo de estudos do pós-abolição, é possível perceber que a coisa não foi bem assim. O meu livro ajuda a compreender esse momento histórico no caso sergipano. Eu me deparei na documentação com libertos bastante estrategistas e que lutaram, ao seu modo, pelos seus direitos, sejam eles no campo da habitação, do trabalho, do lazer, no cenário político e na defesa da nova condição de livre que a lei lhe garantia, “uma vez que já não eram mais escravos”. Assim, durante a pesquisa, localizei alguns libertos que permaneceram trabalhando na antiga propriedade onde eram escravos, desde que fossem firmados novos contratos de trabalho que lhes garantissem uma remuneração considerada justa e que os distanciassem da antiga condição escrava. Por exemplo, algumas libertas decidiram continuar trabalhando na casa da sua antiga senhora no serviço doméstico, contanto que não fossem obrigadas a pernoitar no local de trabalho porque isso as aproximava da sua antiga condição escrava. Essa nova exigência das libertas, fez com que uma ex-senhora manifestasse sua insatisfação na imprensa sergipana, já que, segunda ela, se uma “mãe de família” quisesse beber um chá à noite, ela que levantasse da cama e fizesse, uma vez que não poderia contar com os serviços domésticos das libertas no período noturno, o que considerava um absurdo. Vê-se, ai, um exemplo claro de como o 13 de maio de 1888 representou uma ruptura com as antigas relações escravistas. Já outros libertos e libertas, entenderam que o melhor a ser feito era se distanciar do antigo local de trabalho. Muitos partiram das fazendas em busca de um novo futuro em Aracaju, cidade em crescimento, ou em outras localidades; há ainda aqueles que saíram em busca de parentes, uma vez que eles haviam se separado durante as vendas de cativos, comum durante a escravidão. Ou seja, ao contrário do que a telenovela nos induz a pensar, as estratégias assumidas por esses libertos no momento em que “o cativeiro se acabou” foram extremamente diversas. Há também uma grande incompreensão sobre os significados do 13 de maio que tento discutir no livro. Para muitos, essa data foi uma farsa, fruto de uma decisão conservadora oficializada nas linhas da princesa Isabel. É inegável que o projeto abolicionista aprovado pela princesa, foi o mais conservador possível, no entanto, o fato histórico não pode ser reduzido a esse aspecto. A experiência dos beneficiados pela lei nos mostra outra possibilidade interpretativa. Ao perceber esse evento na perspectiva dos libertos, vemos como ele foi bastante festejado nos quatro cantos de Sergipe; de norte a sul, de leste a oeste. Por um certo tempo, esse foi um dos eventos mais comemorados pela população liberta sergipana. E a justificativa para tal, eram os ganhos proporcionados pela lei, como os que já mencionamos anteriormente, a exemplo da possibilidade de migrar sem a necessidade de prestar contas a um senhor, a definição de uma nova jornada de trabalho sem a necessidade de pernoitar etc. Se a abolição foi fruto de uma solução conservadora, é possível perceber algumas rupturas com o período escravista, espaço onde os ex-escravizados atuaram em busca do reconhecimento daquilo que eles entendiam ser seu por direito. Comemoraram não por serem alienados, mas porque perceberam no plano do cotidiano que algo mudou para melhor. Outro ponto importante que o livro traz, diz respeito a uma parte da história de Aracaju que acabou sendo silenciada pela exaltação aos grandes nomes como Inácio Joaquim Barbosa (presidente da província de Sergipe responsável pela mudança da Capital) e Sebastião José Basílio Pirro (engenheiro que projetou Aracaju). Como tive um foco maior no cenário Aracajuano, percebi o quanto essa população liberta foi fundamental para o crescimento da recém capital, Aracaju. Na época da abolição, Aracaju havia completado três décadas de existência, cidade muito jovem. E, sem sombra de dúvidas, a população africana e afrodescendente pintou o seu modo de ser, pensar e agir nas ruas da cidade. Em vista disso, entendo que a população afro teve uma participação decisiva na formação da cidade de Aracaju, seja expandindo os seus limites para além da região central, na medida que chegavam novos migrantes das áreas rurais; abastecendo o mercado central com produtos; ou até mesmo organizando festividades, como os sambas espalhados pelas ruas da capital, uma forma de lazer largamente utilizada pela sociedade da época. Gente como o liberto Plácido Penna, proprietário de uma barraca de peixe ao lado da Ponte do Imperador, que embora fosse bastante conhecido pela população Aracajuana do século XIX que circulava pelas ruas do centro, acabou sendo esquecido pela memória pública, pois não se vê ruas, praças ou prédios públicos do centro aracajuano batizados em sua homenagem ou em homenagem à população afro-sergipana.

Expressão Sergipana: Você consegue identificar como esse processo dos libertos em Sergipe pós-abolição se diferenciou do processo nível nacional?

Edvaldo Alves: Sim. Cada contexto histórico reserva características que lhe são específicas e Sergipe não foge dessa regra. Sobre o pós-abolição, até o início da década de 80, era comum se basear em pesquisas elaboradas a partir da realidade do Rio de Janeiro e de São Paulo e, em seguida, estender as conclusões dessas pesquisas para o restante do Brasil. Então, se você quisesse saber como foi a situação do liberto em Sergipe, bastava ler os trabalhos feitos para essas localidades que você solucionaria esse problema. Era assim que os historiadores sergipanos até pouco tempo faziam. Hoje, por meio do crescimento dos estudos sobre o pós-abolição, isso não é mais possível. Se a gente comparar a realidade desses dois estados com Sergipe, por exemplo, percebemos que em Sergipe, durante a substituição do trabalho escravo para o trabalho livre, os proprietários sergipanos não contaram com a mão de obra do imigrante, seja ele europeu ou asiático, como ocorreram nessas duas localidades. Aqui, esses postos de trabalho antes ocupados por escravos, passou a ser negociado com libertos que exigiam novas condições.

Expressão Sergipana: Em que sua pesquisa contribui no fortalecimento da identidade racial, diante da efervescência do debate na atualidade?

Edvaldo Alves: Penso que o conhecimento histórico tem um papel importante na formação das identidades, inclusive a racial. O primeiro passo é lembrar para população brasileira que existe uma história do negro no Brasil para além do período escravista. Sabemos que é de suma importância estudar os desdobramentos da escravidão, primordial para impulsionar políticas públicas de reparação, no entanto, é um erro gravíssimo achar que o negro só tem importância na história enquanto escravo. Assim, as discussões do pós-abolição possibilitam repensar a presença e a contribuição africana e afro-brasileira na história do Brasil para além da escravidão, de modo a contribuir na luta contra o racismo; longe de serem vítimas da história, os libertos e seus descendentes foram sujeitos partícipes não só da nossa cultura, mas também das outras esferas da sociedade brasileira. Se a escravidão foi uma violência institucionalizada, no pós-abolição, não observamos, por parte do Estado, políticas de inserção social dos libertos e seus descendentes, mas sim políticas de repressão que condenaram as diferentes práticas sociais desse segmento da sociedade, a exemplo das leis de vadiagem, da criminalização do samba, da capoeira e da perseguição das religiões de matrizes africanas. Historicizar esse processo, além de ser essencial no fortalecimento da identidade racial e na promoção de políticas públicas para atender às demandas da população negra historicamente estigmatizada e injustiçada, é construir uma importante ferramenta de combate ao preconceito e a discriminação racial.

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Comunicador Popular, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de Sergipe, apaixonado por Futebol e Política

1 COMENTÁRIO

  1. Sua pesquisa é realmente interessante, meu amigo e parceiro de profissão Edvaldo Alves. É muito bom e importante abrir novas perspectivas sobre assuntos que são pouco pesquisados. Sua pesquisa é de suma importância para realmente fugirmos de uma linha de pensamento tão simplista e tão incompleta, colocando o negro numa posição onde só se seguia um caminho, a formação das favelas, aceitando qualquer tipo de trabalho, continuando sendo submisso as imposições dos seus patrões, enfim gostei muito do que você explanou na entrevista, parabéns mais uma vez pela ótica que seu trabalho mostrou, fugindo de uma generalização.

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