A epopeia rubra: 108 anos do Club Sportivo Sergipe

Imagem do documentário "Club Sportivo Sergipe memória preservada", de Dida Araújo

Por Gustavo Tenório*

O mais belo cenário da cidade é, sem dúvida, o das águas do rio que dá nome ao nosso estado. Sua cena mais bela, por sua vez, vê-se pela manhã, momento em que os raios do sol se espelham por entre ondas suaves, sob um breve frescor matinal, enquanto as vozes da cidade ainda se fazem tímidas. Houve um tempo em que as ninfas gregas deslizavam com vigor e delicadeza pela extensão daquelas águas. Eram as Nereidas, filhas do deus Nereu, o mais antigo Senhor dos mares, e da deusa Dóris. Eram belas como nunca se viram em terra firme. Eram mais velozes que qualquer um que ousasse desafiá-las. Justas e benevolentes com quem se enveredava pelos mares, guiavam e indicavam o caminho mais seguro a se navegar.

O efervescente século XX despontara nas páginas da história. O ano é 1909. Estamos em outubro e as manhãs ensaiam uma promessa de verão. A avenida que margeia o rio Sergipe, em sua margem direita, ainda não se chamava Ivo do Prado. Mas, desde sempre, Rua da Frente, ainda que não oficialmente, por mais espontâneo que seja dizê-lo. Bravos homens, com suas regatas vermelhas, atravessam a via sustentando, ao alto, uma comprida embarcação. Nada singrava as águas do Rio Sergipe com tamanha destreza como a Nereida. Seu desempenho divino inspirara aqueles atletas a dar-lhe o nome – ou, talvez, a força do mito é que os tenha inspirado. De qualquer sorte, o espetáculo comovia o público, que assistia às regatas debruçados na mureta da avenida, entre gritos de “Sergipe!” ou de “Cotinguiba!” – ouso dizer, salvo melhor juízo histórico, que o primeiro se fazia e se faz mais estrondoso.

A primeira década do século, em sua belle époque tropical, passou a distrair os aracajuanos com as pelejas náuticas entre aqueles dois clubes (Sergipe x Cotinguiba). O entretenimento regatiano teve o seu apogeu naquela primeira metade de século. Mas logo cedeu espaço para o foot-ball. Em 1916, o Club Sportivo Sergipe dera seu pontapé inicial nos gramados do estado. O escrete rubro atravessou as décadas e o século e construiu uma hegemonia indiscutível no cenário futebolístico sergipano. Cruzou as fronteiras do estado e desafiou os maiores escretes do país. Aliás, equipes e seleções internacionais mediram suas forças com o Vermelhinho.

Do remo ao futebol, o valor do clube rubro se materializou em uma vasta e invejável coleção de troféus. Para cantar a glória e os louros, em coerência com a inspiração mítica do nome de sua primeira embarcação, seria necessário um poeta que representasse o espírito épico dos antigos gregos, como Homero e Hesíodo. Enfim, na década de quarenta, João Freire Ribeiro, poeta e professor sergipano, eternizou a epopeia lírica rubra em versos que hoje ecoam pelas arquibancadas.

Assim foram os primeiros anos do Club Sportivo Sergipe. Sua antiga sede, na Rua da Frente – é sempre mais sincero dizê-la –, quedava-se diante da sua primeira cancha: o rio que lhe dera também o nome. Não é demais apaixonado dizer que o clube representa e simboliza o tal do espírito da sergipanidade como nenhum outro. O estado, o rio, o povo, o clube. Aliás, o Vermelhinho é o verdadeiro amálgama da nossa gente: democrático e plural. Dos remadores da sua primeira embarcação, a Nereida, aos atletas do esporte bretão e às pequenas ginastas que passaram a nos encantar com seus delicados movimentos, a história do Gipão merece ser festejada nestes 108 anos de lutas e de glórias. A caminhada hoje se faz árdua, como outrora já se experimentou e se superou. Sempre, diga-se, com a força da grande massa altaneira a conduzi-lo, agitando seu pendão alvirrubro, seja em dias de prélios famosos ou d’outros amargos. O sentimento rubro não se esmorece! Para frente!

*Gustavo Tenório é advogado, aprendiz de Nelson Rodrigues e costuma vestir uma camisa rubra quase todo santo dia

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