Universidades públicas de todo o Brasil vêm sendo atingidas por cortes de bilhões de reais em seus recursos – inclusive sofrendo graves riscos de fechamento -, operados pelo governo de Michel Temer. Não satisfeito, a emenda constitucional 95 que enviou ao congresso nacional estabeleceu limites para os gastos primários do governo por 20 anos, o que causará um impacto avassalador na educação brasileira. Além disso, Michel Temer vetou o artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2018 que determinava entre as prioridades legais do governo o cumprimento das metas de Plano Nacional de Educação. As coisas não tendem a melhorar no próximo ano.

Com o mais que evidente desprezo pela educação de Michel Temer, não é de se estranhar que a UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro – fechou suas portas durante o mês de agosto deste ano por falta de recursos, sem nenhum apoio do governo federal. Milhares de professores, servidores e bolsistas não vêm recebendo seus pagamentos de forma regular há meses. Não só as aulas como também os projetos de extensão e o hospital universitários estão comprometidos. Há pouco mais de um mês, também a Universidade Federal de Sergipe (UFS), anunciou dificuldades para pagar o salário dos terceirizados e as contas de água, luz e telefone, além da redução das bolsas de estudo por cortes das verbas para assistência estudantil pelo governo federal.

O que é de se estranhar é o posicionamento de parte de um grupo de universitários sergipanos diante deste quadro. Como em todos os anos, a UFS está passando por um processo de eleições do Diretório Central dos Estudantes (DCE), entidade que representa os estudantes nas suas lutas. Uma das chapas, com um discurso de suposto apartidarismo, defende um DCE que se paute apenas pelas questões imediatas dos estudantes e “acusa” a gestão atual de participar da política. Na prática, esse discurso redunda em se propor enquanto uma representação que retira os estudantes das disputas pelo rumo da educação no país.

A suposta negação da política é comum nos momentos de crise econômica, política e social. Historicamente, desaguou no fascismo, como nas décadas de 30 na Europa, chegando logo ao Brasil. O episódio recente do estudante da UNIT – que, de acordo com as notícias, fez apologia ao nazismo durante evento público na instituição – não é algo isolado, mas produto do crescimento dessa concepção.

Sem abandonar as reivindicações mais imediatas dos estudantes, o DCE da UFS participou de forma essencial e imprescindível na construção de duas grandes greves gerais no país contra os retrocessos do governo Michel Temer e do maior ato da história de Sergipe, além de manifestações de envergadura nacional sem as quais outras tantas medidas de Temer já seriam realidade. Não só a atual gestão, mas diversos outros grupos que compõe outras chapas prestaram contribuição nessas lutas, grande parte construindo a Frente Brasil Popular.

Em diversos momentos da História do Brasil, o movimento estudantil brasileiro foi um dos principais protagonistas das lutas políticas do país, como no enfrentamento ao nazi-fascismo na década de 40, na resistência contra o golpe militar e a ditadura, na campanha pelas “Diretas Já”, na luta contra as medidas de sucateamento das universidades na década de 90 e na conquista de direitos que fortaleceram a educação, como o Prouni e a expansão das universidades.

No momento atual, a importância dos debates que estão sendo travados na UFS extrapolam ainda mais os muros da universidade. Independentemente de qual das diversas chapas cada estudante da UFS escolha votar, é antagônico eleger os que defendem a omissão diante do quadro político do país, em especial quanto à educação. Nesse contexto, não lutar contra os retrocessos do governo Temer e o fechamento de universidades é o mesmo que bater palmas, a neutralidade é um apoio a quem está no poder. Ou, nas palavras de Bertold Brecht, “que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”.

Herick Argôlo, membro da Frente Brasil Popular.

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