Guardiões de sementes realizam encontro em Poço Redondo/SE

"Quando Deus fez o mundo, ele fez o semeador. E hoje, esse semeador e semeadora somos nós", afirmou dona Josefa, guardiã de sementes da comunidade quilombola Sítio Alto, localizada em Simão Dias

Por Daniela Bento – comunicadora do CDJBC

Por Daniela Bento, comunicadora do CDJBC

Sob as bênçãos e agradecimento a São Pedro, que segundo a tradição popular, detém o poder da chuva, 40 guardiões e guardiãs de sementes, inseridos no Programa Sementes do Semiárido (ASA/SASAC), estiveram reunidos(as), no último dia 29, para mais uma capacitação do Programa: Capacitação Territorial sobre Seleção, Produção e Multiplicação de Sementes.

A atividade aconteceu no agroecossistema de dona Josefa, no povoado Sítio Óleo, em Poço Redondo (SE), e contou com guardiões e guardiãs dos municípios de Frei Paulo, Pinhão, Poço Redondo, Canindé, Porto da Folha, Monte Alegre, Nossa Senhora da Glória e Sítio Alto.

Durante a capacitação os guardiões e guardiãs trocaram experiência sobre práticas de manejo de solo e seleção de sementes. A anfitriã, Josefa, que é feirante na Feira da Agricultura Familiar de Poço Redondo, trouxe em poucas palavras a sua prática de compostagem:

“A minha prática é assim: eu coloco uma camada de casca de feijão de corda e uma camada de esterco de gado e vou aguando, a cada camadinha eu vou aguando. Eu também coloco resto de legume como alface de tudo que sobra da feira, casca de ovos também eu coloco, sempre colocando uma camada de esterco e um pouco de água. Enquanto tiver folha eu vou colocando. Após 08 dias eu reviro e todos os dias eu coloco um pouco de água, não muito para não ficar encharcado e com 90 dias está pronto para o uso”, ensina.

O programa está em sua segunda etapa e já conta com 460 famílias cadastradas divididas em 23 casas de sementes. Avaliando um pouco as ações do Sementes do Semiárido, Luiz Mário, Coordenador do Programa no Sasac nessa segunda etapa, destaca a entrega das sementes logo no início das atividades como um grande avanço desse termo. “Ao todo foram entregues sementes de milho, feijão, fava, coentro e alface, nas 08 casas desta segunda etapa, somando mais de 1 tonelada e meia de sementes.  Essa ação culminou com o período invernoso onde o plantio no tempo certo tem alimentado a nossas expectativas de termos uma boa colheita e ampliação das sementes nas casas”, afirma.

Um dos grandes desafios a ser superado é o processo de contaminação de sementes de milho por transgenia, tendo em vista que muitos agroecossistemas inseridos no programa e que produzem de modo alternativo, estão próximos de áreas em que há produção convencional, mas mesmo assim o balanço do programa para sementes livres de contaminação é bastante positivo. Das 48 sementes testadas apenas 05 apresentaram contaminação.

Num momento em que o país enfrenta duros cortes em programas sociais, e há um grande incentivo do governo federal ao agronegócio e ao monocultivo, como o anunciado no dia 07 de junho, no qual a abrangência do financiamento para o Plano Agrícola e Pecuário, com a fonte Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), tem uma  expectativa de atingir um montante de R$ 27,3 bilhões, além da retomada da linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a renovação de canaviais, no valor de R$1,5 bilhão em recursos, o Programa Sementes do Semiárido e seus  números ratificam a sua relevância junto as experiências do campesinato.

Seu João de Lima, do povoado Catuabo, localizado no município de Frei Paulo destaca que um dos maiores ganhos do Programa é o processo de reflexão sobre o modo de produzir. “Este programa, ele traz um interesse da gente refletir o quanto que a gente joga fora da nossa própria vida. Usando veneno, usando produtos que muitas vezes não é nós quem constrói, mas que a gente compra. E a gente vai ingerir uma coisa que não se produziu, mas que comprou. Mas se a gente produzir uma coisa limpa, que a gente tem no fundo do nosso quintal não é tão mais importante? Então eu venho aprendendo mais com isso. Então se está tendo uma chance da gente produzir um produto limpo, sem tanta intoxicação de venenos pra nós é muito importante”, afirma.

Já dona Maria de Lourdes da comunidade de Poço Preto em Poço Redondo, 49 anos, dos quais pelo menos, 40 foram dedicados à agricultura, diz nunca ter usado veneno e que a prática de guardar sementes faz parte da tradição familiar e vem desde seus avós. Para ela, a grande contribuição do Programa é a valorização da prática para as novas gerações.

“O Programa vem fortalecer cada vez mais e os filhos da gente vão se envolvendo também, porque às vezes eles vêm fazendo aquilo, passando veneno e pode se convencer né. Eu tenho um menino, que às vezes eu ia assim pros encontros e ele dizia: Mãe a senhora tá perdendo tempo. E eu dizia: Não quem tá perdendo tempo é você que tá em casa. Agora ele já tá botando na cabeça que o que eu estava fazendo é bom pra gente e pra ele mesmo né, e tá começando a ir no caminho da gente”, revela.

Em Sergipe, o Programa tem buscado se aproximar e fortalecer ações da Rede Sergipana de Agroecologia (RESEA) e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) de Sergipe. Nesse sentido, algumas atividades previstas dentro do programa têm acontecido dentro da Unidade Produtiva Camponesa-UPC, área localizada no Projeto de Assentamento Califórnia e que integra o perímetro irrigado que tem a mesma denominação e fica no município de Canindé do São Francisco no Alto Sertão sergipano.

O tamanho total da unidade é de 60 tarefas, o equivalente a 18,18 hectares, propícia à produção de sequeiro e, uma área medindo 3,3 hectares irrigadas para produção de sementes crioulas. Esta unidade tem como principal objetivo o fortalecimento e valorização da história do modelo de produção do campesinato e a rejeição e problematização do modelo de produção pautado nos princípios produtivos do agronegócio.

Dentre as atividades realizadas pelo Programa na Unidade, constam: Encontro Estadual dos guardiões e guardiãs de sementes crioulas do Programa Sementes do Semiárido; Capacitação em caracterização da diversidade comunitária de sementes e ainda está prevista para acontecer nesse mês de julho uma capacitação em gestão de estoque.

Para finalizar o encontro, dona Josefa guardiã de sementes da comunidade quilombola, Sítio Alto, localizada em Simão Dias, fez a seguinte reflexão: ”Quando Deus fez o mundo, ele fez o semeador e hoje, esse semeador e semeadora somos nós!”.

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