Por Osvaldo Ferreira e Erick Feitosa,

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé neste salão

Dança Joaquim com Isabé
Luiz com Iaiá
Dança Janjão com Raqué
E eu com Sinhá
Traz a cachaça, Mané
Eu quero vê, quero vê páia voar (São João Na Roça, Luiz Gonzaga)

O mês de junho chega ano após ano de forma especial para os nordestinos, consequentemente para nós sergipanos. Diante disso, a Expressão Sergipana preparou um texto exclusivo para os nossos leitores com as 10 coisas que você não pode deixar de fazer no mês junino em Sergipe. É claro que não pretendemos unanimidade entre os leitores, pois seria impossível diante de tamanha riqueza cultural. Vamos lá???

São João: Da celebração pagã do solstício aos grandes arraiás no Nordeste

Originalmente, o evento era uma festa pagã que comemorava a chegada do solstício de verão no Hemisfério Norte. Transportada para o Hemisfério Sul, a data foi associada ao solstício de inverno. Neste período se comemorava também a grande colheita de legumes e frutas, além de ser a festa da comemoração da fertilidade da agricultura.

Com a evangelização da Europa, na Idade Média, o ritual pagão foi incorporado ao calendário cristão e o 24 de junho passou a comemorar o nascimento de São João Batista. Após isso, outras datas do mês foram também associadas a santos populares: o dia 13 é dedicado a Santo Antônio; o dia 29, a São Pedro e São Paulo; e o dia 30 homenageia São Marçal.

Com a exploração portuguesa, essas festividades chegam aqui no Brasil e nelas são incorporados elementos, costumes e tradições indígenas e africanas, dá-se assim ao ritual junino brasileiro características próprias. E assim, a mistura entre as festas cristãs de santos e os folguedos pagãos recriam um mistura única que até hoje apresentam novas práticas culturais. Pra quem já ouviu falar em festejos juninos, não é novidade, no nordeste brasileiro o São João encontrou seu principal palco com a colheita do milho e ao som do forró enriquecendo o mês de junho.

E é no Nordeste que encontramos os maiores artistas do forró. Por acaso você já ouviu falar de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Clemilda, Marinês? E Jacinto Silva, Elba Ramalho, Josa Vaqueiro do Sertão, Dominguinhos, Flavio José, Trio Nordestino, Rogério? Eles, entre outros e outras, canta o ritmo que toca no nordeste durante todo o período junino. É nessa região brasileira que encontramos também os maiores arraiás do mundo, como Aracaju, Campina Grande, Caruaru, Mossoró, Barbalha, Itabaiana, Capela, Arcoverde, São Luiz, Amargosa, Cruz das Almas, Arapiraca, São João do Piauí e Areia Branca. Como diria Câmara Cascudo: “São João é o retrato fiel da mistura e a diversidade de costumes e tradições que resume como Natal do Nordestino”.

1) Ter no armário: Cor, estampa e xadrez

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Foto: Mundo das Tribos

Desde pequenos aprendemos nos arraiás das escolas que os trajes juninos são coloridos e estampados, essa é uma forte tradição da nossa festa e vale a pena mantê-la viva. Então, como diz o ditado popular, já que “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”, ter pelo menos uma peça de roupa característica para o mês junino também não faz mal a ninguém. Calça jeans (com ou sem retalhos), camisa xadrez, chapéu de palha e vestido colorido com babado, fita, renda e flore. Cada um escolhe o seu. E se quiser dar um toque na maquiagem, não é exagero.

Mas onde vem esta tradição? Bom, é simples. Por mais que tenhamos uma expressão urbana muito forte das tradições juninas, o seu florescimento vem do Brasil rural, é daí que vem o vestuário de celebração campesino, misturado ao vestuário do Brasil caipira e sertanejo, que com o passar do tempo se tornou uma vestimenta própria dos festejos juninos, principalmente no Nordeste. Com a “armadura” junina em dias estamos prontos para iniciar nossa caminhada.

2) Ir pelo menos uma noite para o Forró Siri

Foto: Divulgação 

O Forró Siri nasceu em 1993, na segunda maior cidade do estado Sergipe, Nossa Senhora do Socorro. A festa foi idealizada por um grupo de amigos moradores de um dos maiores conjuntos habitacionais do município, o Conjunto João Alves Filho. No primeiro ano, na véspera e no dia da festa de São Pedro,organizaram um típico e humildade “Palhoção” num areal.

O nome da festa veio de um crustáceo existente no mangue que circunda o município, em especial o local onde nasceu a festa, o Siri. Com o passar dos anos a festa foi ganhando melhorias na infra-estrutura e uma programação cada vez maior. A partir de 1998 a abertura da festa ocorre na sede do município no final de maio e início de junho. Hoje o Forró Siri tem dimensões de um evento nacional com grandes atrações, animando mais 250 mil forrozeiros de Nossa Senhora do Socorro e todo Brasil!

Organizado pelas gestões da Prefeitura de Socorro, em 2017 o evento se estenderá pelo Conjunto Jardim no dia 16 de junho e no Parque doa Faróis, dia 17. E o tradicional São Pedro, que ocorrerá na nova Arena de Eventos, localizada no Mercado Municipal José do Prado Franco, nos dias 30 de junho, 1º e 2 de julhoClique aqui para conferir a programação completa do Forró Siri.

3) Ir pelo menos uma noite para o Forró na Orla de Atalaia

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Foto: Divulgação

Vila do Forró ou Arraiá do Povo, montada na Orla de Atalaia, se tornou palco de muitos forrós no período junino. Com uma pegada mais família, o Encontro Nordestino de Cultura – Arraiá do Povo conta com várias barraquinhas de comidas típicas, artesanatos, além de um grande arraiá que conta com apresentações de quadrilhas, grupos folclóricos, bandas de forró e trios pé-de-serra. Hoje, também é considerado um dos maiores festivais de forró do país e tem agradado muito os turistas que visitam nossa terra em junho.

Organizado pelo Governo de Sergipe, através da Secretaria de Estado da Cultura, o Arraiá do Povo neste ano de 2017 começa no dia 22 de junho e vai até 01 de julho. Clique aqui para conferir a programação completa do Arraiá do Povo de 2017.

4) Ver o Barco de Fogo em Estância (SE)

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Foto: Cassandra Teodoro

Referente ao barco de fogo, produzido exclusivamente em Estância, temos um bem de cunho tradicional e artesanal ligado ao ciclo junino histórico. O bem cultural em sua origem data do início do século XX, criado por Chico Surdo e, de acordo com Ronaldo (Roni), fogueteiro nascido no município e há 30 anos está no meio dos fogueteiros, “não se tem precisão quando iniciou a produção do barco de fogo, mas, é uma tradição que se arrasta por décadas, passando de geração em geração”. E se o barco de fogo não funciona sem as Espadas, a maior tradição de Estância na área de fogos é ela, onde o barco de fogo está ligado diretamente.

O Poder Público Estadual reconhece o Barco de Fogo como patrimônio cultural do povo sergipano, através da Lei 7.690. O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de Fogo, data de nascimento de seu criador, Chico Surdo, e, faz parte do calendário cultural do município de Estância.

5) Assistir as Quadrilhas Juninas

Foto: Pritty Reis 

Antes de começar temos duas coisas importantes para falar:

1. Ao assistir as apresentações das Quadrilhas Juninas se a emoção não se conter apenas em arrepios e sorrisos e acabar por transbordar em lágrimas, deixa rolar, são as nossas raízes se manifestando.

2. Não basta assistir, tem que dançar. Não necessariamente nas belíssimas Quadrilhas Profissionais, mas nos arraiás, no meio do Povão. Sempre tem um grupinho de amigos que puxa alguns passos das quadrilhas e acaba envolvendo uma multidão… “Anavan! Anarriê! Olha a Grande Roda! Olha o Serrote! E o túnel! Olha Chuva… é mentira! Olha cobra… é mentira!”

De acordo com historiados e pesquisadores da cultura popular, a quadrilha surgiu na França do século XVIII. Principalmente em Paris, ocorriam danças coletivas, formadas geralmente por quatro casais, que tinham o nome de “quadrille”. Estas danças ocorriam em grandes salões palacianos e contavam com a participação exclusivamente de membros da aristocracia francesa.

A quadrilha chegou ao Brasil no final da década de 1820 e, assim como em seu país de origem, foi muito comum entre as classes sociais mais ricas da sociedade brasileira da época (principalmente entre os integrantes da corte brasileira residente no Rio de Janeiro). Foi somente no final do século XIX que a quadrilha se popularizou e tornou-se comum entre as camadas populares da sociedade. Porém, ao tornar-se popular, agregou diversos elementos culturais populares, principalmente os relacionados às tradições e modo de vida no campo. Ganhou também, neste momento, um caráter mais divertido, com pitadas de momentos descontraídos e engraçados.

Em Sergipe, um dos mais tradicionais palco de apresentações destas manifestações culturais foi a Rua São João, no bairro Santo Antônio, na capital sergipana. Nesse arraiá há mais de 109 anos que se tem registros de apresentações de quadrilhas em Aracaju. Com passar dos anos as quadrilhas foram ocupando outros espaços como a Praça Fausto Cardoso, Rua de Siriri, Arraiá do Arranca Unha no atual Centro de Criatividade, no Arraiá da Rua Riachão, o antigo Festival de quadrilhas do Bompreço no São José, no Gonzagão e hoje as apresentações no Arraiá do Povo na Orla de Atalaia que já ocorrem a mais de 11 anos.

Em 2017 temos 2 grandes concursos de quadrilhas acontecendo em Sergipe. No Arraiá do Gonzagão, no Complexo Cultural O Gonzagão, e o Arraiá do Arranca Unha, no Centro de Criatividade. Confira a programação em nosso Guia dos Festejos Juninos de Sergipe.

6) Comer muita comida a base de Milho

Milho
Foto: Divulgação

Como o mês de junho é a época da colheita do milho, grande parte dos doces, bolos e salgados, relacionados às festividades, são feitos deste alimento. Pamonha, milho verde assado, milho cozido, canjica, cuscuz, pipoca, bolo de milho e manauê (bolo cremoso de milho) são apenas alguns exemplos. Além das receitas com milho, também fazem parte do cardápio desta época: arroz doce, bolo de amendoim, bolo de púba, malcasado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho quente, bolo de macaxeira e entre outros. Vixe… é de dar água na boca!

7) Comer amendoim cozido

Amendoim Cozido
Foto: Cesar de Oliveira

Para começo de história: quem nunca comeu amendoim cozido não sabe o que está perdendo. E quem já comeu amendoim cozido, sabe o quanto é difícil parar de comer esse danado.

O amendoim cozido é um patrimônio de Sergipe em razão do seu modo de preparo, mais especificamente o seu cozimento e secagem. Vamos encontrar amendoins cozidos em outros estados e inclusive na nossa querida Bahia, porém o modo e o porquê do cozimento é diferente. O costume aqui em Sergipe é tão forte que não só comemos no São João, comemos em qualquer momento de festividade que combine com as baguinhas deliciosas cozidas, na praia então, o que não falta é amendoim para comprar e comer.

A forma como o amendoim é comercializado em Sergipe é autêntica – cozido em água, limão e sal -, por isso, o alimento típico do estado. A partir de uma lei de iniciativa da deputada Ana Lúcia, passa a ser reconhecido oficialmente como Patrimônio Imaterial de Sergipe, por meio da lei 7.682/20013.

8) Acender uma Fogueira

Fogueira
Foto: Divulgação

Para os católicos, a fogueira é símbolo de um acordo entre as primas Maria e Isabel. Numa tarde, Santa Isabel foi à casa de Nossa Senhora (Maria) e aproveitou para contar-lhe que, em breve, iria nascer seu filho e que ele se chamaria João Batista. Nossa Senhora queria ficar informada sobre o nascimento e perguntou à prima como poderei saber do nascimento do garoto, Isabel respondeu que acenderia uma fogueira bem grande para que ela pudesse vê-la e, de longe, saber que João Batista nasceu. Além da fogueira, Isabel disse também que iria mandar, também, erguer um mastro, com uma boneca sobre ele.

A promessa foi cumprida e, um dia, Nossa Senhora viu uma fumacinha e depois umas chamas bem vermelhas. Dirigiu-se para a casa de Isabel e encontrou o menino João Batista, que mais tarde seria um dos santos mais importantes da religião católica. Isso se deu no dia 24 de junho. Começou, assim, a ser festejado São João – com mastro, fogueira, foguetes, balões, danças, etc. Não tem coisa melhor que reunir a família ao redor de um bela fogueira e celebrar. Aproveita e coloca uns milhos para assar e compra uns traques para a criançada soltar.

9) Ir para a Festa do Mastro em Capela

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Foto: Arthuro Paganini/Infonet

A Festa do Mastro em Capela, interior de Sergipe, surgiu em 1939 por iniciativa de quatro irmãos da família Melo: Nelson Francisco de Melo, Napoleão Francisco de Melo, Wilson Melo e Anderson Francisco de Melo. A festa marca o dia de São Pedro na cidade de Capela, festejo que ocorre em várias etapas durante os meses de maio e junho: 31 de maio (A Sarandaia); 28 de junho (saída da Baiana ou “Nega Baiana”); dia de Corpus Christi (escolha do mastro); 29 de junho (festa da lama, São Pedro).

A “Sarandaia”: O termo Sarandaia ou Sarandagem, significa vadiagem, vagabundagem, brincadeira; às 22 horas do dia 31 de maio, um grupo folclórico sai às ruas ao som da zabumba e pífanos, acompanhado por bacamarteiros (que dão tiros de festim de bacamartes), em busca de prêmios (geralmente bebidas) nas residências da cidade, para pendurarem nos galhos do mastro no dia de São Pedro. A saída da Baiana: no dia 28 de junho às 15 horas, um homem se veste de Baiana com um grande cesto na cabeça, sai da Prefeitura acompanhado por zabumbeiros e pífanos, pelas casas comerciais da cidade, pedindo presentes para o mastro; o cortejo é sempre acompanhado por diversas pessoas e dá-se de maneira rápida, encerrando-se na prefeitura por volta das 18 horas. Dia de Corpus Christi: na mata do Junco Novo, no povoado Lagoa Seca, uma árvore é previamente marcada e seus galhos mais baixos retirados.

São Pedro e a festa na lama: às 7h30 de 29 de junho uma multidão sai da Prefeitura Municipal, rumo à mata para ali cortar a árvore; durante o trajeto até a mata (uma distância de dez quilômetros) os foliões dançam ao ritmo do carro de som. Ao chegar à mata, é feita uma saudação pelos bacamarteiros ao redor da árvore escolhida. A árvore do mastro é derrubada a machadadas e novas mudas são plantadas no local. Os participantes rumam em cortejo em direção a praça de São Pedro (Praça Anderson de Melo) onde serão amarrados nos galhos do mastro os brindes recolhidos durante a “Sarandaia” e a “Baiana”.

O cortejo vem sob o ritmo dos zabumbeiros, dançando e bebendo, como vêm completamente molhados e sujos, atiram lama uns nos outros. Na praça, o Mastro recebe nova saudação do batalhão de bacamarteiros, e é fincado num buraco e erguido por cordas pelos participantes. À noite fazem uma fogueira ao redor do mastro, quando o mesmo tomba são jogados busca-pés nos que se arriscam a apanhar os prêmios, e mesmo assim nada sobra. Dança e música continuam até o amanhecer do dia. Clique aqui para confira a programação do São Pedro de Capela 2017.

10) Apreciar a Orquestra Sanfônica de Aracaju

Orquestra Sanfônica
Foto: Jadilson Simões

A Orquestra Sanfônica de Aracaju (ORSA) foi criada em 2007 por músicos e professores da Escola Oficina de Artes Valdice Teles com o intuito de despertar novos acordeonistas e levar para a sociedade o que há de mais representativo na cultura sergipana: a sanfona.

O grupo é um encontro de várias gerações, com integrantes de diversas faixas etárias. O repertório da Sanfônica passeia pela leveza da bossa nova, a ginga do frevo, a sensualidade do tango argentino e pelo calor do autêntico forró. Canções como Feira do Mangalo, Tico-Tico no Fubá, Asa Branca, Bossa Wave, o tango La Cumparsita e o frevo Vassourinha encantam a todos que têm a oportunidade de assistir a apresentação do grupo. É coisa linda de se ver.

Em 2017 a Orquestra fará show no de 25 de junho, Domingo, a partir das 23h, no Arraiá do Povo na Orla de Atalaia em Aracaju. O show é uma homenagem aos 10 anos Orquestra Sanfônica de Aracaju. Imperdível.


Essa foi a lista da Expressão Sergipana das 10 coisas que você não pode deixar de fazer no mês junino em Sergipe. Iai, gostou? Qual seria a sua?

Viva Santo Antônio!

Viva São João!

Viva São Pedro!

Viva a Cultura Popular!

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Comunicador Popular, estudante de Pedagogia na Universidade Federal de Sergipe, apaixonado por Futebol e Política

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