Os dois grandes irmãos

Em uma entrevista de Dilma Rousseff ao Jornal Nacional logo após sua vitória nas eleições de 2014, William Bonner questionou porque a Presidenta insistia em propor uma consulta popular para fazer uma Reforma Política. No meio da sua resposta, Dilma foi interrompida pelo apresentador do Jornal Nacional que advertiu que ela iria governar em meio a investigações que poderiam causar instabilidade política e indagou “como pretende enfrentar essas possíveis dificuldades”?

O Jornal Nacional é o telejornal mais assistido do Brasil, com uma capacidade assustadora de atingir milhões de pessoas em poucos segundos. Desde o dia 21/03/2014, há exatos dois anos, o tema preferido do telejornal vem sendo a investigação denominada Lava Jato — principalmente após a entrevista acima citada.

Os capítulos da semana passada trataram das interceptações telefônicas vazadas por Sérgio Moro. A divulgação das conversas é ilegal por vários motivos: porque a divulgação só poderia ter sido feita pelo STF; porque conversas que não têm nada a ver com a investigação não podem ser publicadas; porque houve interceptação colhida após o fim de autorização judicial, mas divulgadas mesmo assim; porque não há fundamentação jurídica para a divulgação das interceptações telefônicas no curso do inquérito policial sigiloso. Com a divulgação, Sérgio Moro cometeu diversos crimes e várias representações contra ele já estão tramitando no CNJ e podem surgir ações penais. Mas a imagem de herói forjada pela Globo, como na matéria veiculada ontem (20) pelo Fantástico, blinda o juiz.

Com o crescimento das críticas à Globo, na semana passada William Bonner defendeu a divulgação das interceptações telefônicas ilegais: “A imprensa cumpre o dever de informar sem restrições”. Mas a Globo não foi zelosa no seu dever quando, por exemplo, foi divulgado o conteúdo de conversas que comprovavam que Roberto Marinho era um os principais articuladores da Ditadura Militar ou, ainda, quando foram trazidos a público pelo Wikileaks documentos sigilosos que revelavam que William Waack, um dos apresentadores do Jornal Nacional, foi indicado por membros do governo dos EUA para “sustentar posições na mídia brasileira afinadas com as grandes linhas da política externa americana”. Da mesma forma, a Globo não vem se empenhando tanto na sua tarefa de informar sem restrições quando as investigações da Lava Jato atingem políticos da oposição.

Com a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil, as investigações conduzidas perante o juiz de primeiro grau Sérgio Moro seriam acompanhadas pelo STF. Contudo, Gilmar Mendes, Ministro do STF escolhido por FHC, suspendeu a nomeação de Lula e manteve o processo com Moro. Dois dias antes da sua decisão, Gilmar Mendes havia sido flagrado — em foto que certamente estará nos livros de História — em almoço com José Serra (PDSB) e Armínio Fraga, que seria o Ministro da Fazenda de Aécio. Na sua decisão, Gilmar Mendes reconhece a ilegalidade da interceptação da conversa entre Lula e Dilma, mas a ratifica mesmo assim.

Os discursos de Gilmar Mendes no plenário do STF contra a corrupção têm sido frequentes, a despeito de ter usado de artifício para impedir por mais de um ano o julgamento de ação judicial que questionava o financiamento privado de campanhas. Gilmar Mendes tem sido sempre o primeiro para quem a Globo gira as suas câmeras nas tímidas tentativas do Governo Dilma de mudar o sistema político. Quando da tentativa de instituição da Política Nacional de Participação Social ou de uma Constituinte Exclusiva sobre o Sistema Político, Gilmar Mendes bradou na tela da Globo que essas propostas eram bolivarianas, querendo conotar, com desfaçatez, que seriam ditatoriais.

Nos dois últimos anos, o principal jornal da Rede Globo já dedicou 1.550 minutos e 30 segundos na cobertura das investigações da Lava Jato, influenciando diariamente a opinião de milhões de brasileiros. Durante o mesmo período, o Jornal Nacional falou sobre Reforma Política durante apenas 36 minutos e 31 segundos, dos quais a maior parte falava sobre o projeto de contra-reforma política capitaneado por Eduardo Cunha. Mesmo após um Plebiscito Popular no qual mais de 7 milhões de votos de pessoas pediram uma Constituinte para mudar o sistema político, a Globo não concedeu ao menos 1 segundo para explicar do que se tratava a proposta. A palavra Constituinte se tornou um tabu e não foi dita uma vez sequer no telejornal durante os dois anos em que vem cobrindo a Lava Jato.

A grande mídia e o Judiciário têm agido ao longo dos anos como dois grandes irmãos que apoiam mutuamente seus interesses. Quando dizem combater a corrupção mas têm como alvo apenas aqueles políticos ligados à defesa de um conteúdo político, não é a corrupção que combatem, mas aquele conteúdo político e todos aqueles que o escolheram nas eleições. A corrupção tende a diminuir bastante nos países com menos desigualdade social e com uma democracia mais profunda. Se o objetivo é esse, os debates em torno da Reforma Política e de uma Constituinte deveriam estar nas manchetes. Um passo, portanto, que se mostra urgente e indispensável para a mudança do sistema político brasileiro é a democratização da mídia e do judiciário.

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