Outubro é o mês do centenário de Ulysses Guimarães

Muitas pessoas podem me perguntar: “Osvaldo porque escreveu esse artigo para ilustrar umas das figuras políticas mais contraditórias do Brasil?”

E respondo: Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Itirapina no interior de São Paulo no dia 06 de outubro de 1916, filho de Ataliba Silveira Guimarães e de dona Amélia Correia Fontes, foi casado com dona Ida de Almeida (conhecida como “Mora”), já viúva e mãe de dois filhos pequenos, Tito Enrique e Celina Ida.

Ulysses teve uma vida acadêmica ativa, participando do Centro Acadêmico XI de Agosto e exercendo a vice-presidência da União Nacional de Estudantes (UNE). Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) no tradicional Largo São Francisco no Centro de São Paulo. Advogado formado em 1940, em 1945 ingressou no Partido Social Democrático (PSD), o partido dos fazendeiros, latifundiários e da burguesia industrial, em que permaneceria até a sua extinção em 1965.

Em 1947, elegeu-se deputado à Assembleia Constituinte de São Paulo, e em 1950, deputado federal. Assumiu a pasta do Ministério da Indústria e Comércio no gabinete do primeiro-ministro Tancredo de Almeida Neves, durante a curta experiência parlamentarista brasileira (1961-1962) na crise institucional e usurpadora pós-renúncia de Jânio Quadros que grupos da burguesia e de setores da sociedade que não aceitava a posse de Jango. Apoiou, inicialmente, o golpe militar contra o presidente João Goulart em 1964, tendo inclusive participado da golpista Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo.

Com a instauração do bipartidarismo (1965), filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o partido do “sim” da ditadura, pois foi aceito pelos ditadores como um disfarce e para passar uma ideia de que havia “oposição” no regime ditatorial, do qual seria vice-presidente e, depois, presidente. Mas, logo passou à oposição quando se opôs ao AI-5 e todos arbítrios da Ditadura Civil-Militar e participando do grupo dos Autênticos dentro do MDB que era um grupo que fazia oposição a ditadura dentro do partido que tinha silencio a todas as barbáries da Ditadura.

Em 1973, com apoio do grupo dos Autênticos lançou sua anticandidatura simbólica à Presidência da República como forma de repúdio ao regime militar, tendo como vice o jornalista e ex-governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, perdendo para o candidato da Ditadura e pela ARENA, o gaúcho general Ernesto Beckmann Geisel. A frente do partido, participou de todas as campanhas pelo retorno do país à democracia, inclusive a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita.

Com o fim do bipartidarismo (1979), o MDB converteu-se em Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do qual seria presidente nacional. Ulysses liderou novas campanhas pela redemocratização, como a das eleições diretas, popularmente conhecidas pelo slogan “Diretas Já”. A campanha pelas Diretas mobilizou o Brasil do Amapá ao Rio Grande do Sul e do Acre a Paraíba. Bom lembrar que Ulysses Guimarães teve em Aracaju em 26 de fevereiro de 1984 junto com todas lideranças políticas para realizar na Praça Fausto Cardoso o vigésimo sexto comício nacional das Diretas com a presença de 38.000 mil sergipanos pedindo a eleição direta.

Ulysses Guimarães quase foi o candidato a presidente da República em 1985 pelo PMDB, quando as eleições foram realizadas no colégio eleitoral de forma indireta, sem o voto do povo brasileiro. As articulações políticas da época acabaram levando à eleição de uma chapa “mista”, com Tancredo Neves como candidato a presidente pelo PMDB e o candidato à vice José Sarney, do PFL (Esse por sinal tinha sido aliado dos ditadores), formando assim um grande acordo entre forças da burguesia brasileira.

Ulysses exerceu a presidência da Câmara dos Deputados em três períodos (1956-1957, 1985-1986 e 1987-1988). Em 1º de fevereiro de 1987, tomou posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte, responsável por estabelecer nova Constituição democrática para o Brasil após 21 anos sob regime militar. A nova Constituição, na qual Ulysses teve papel fundamental, enfim foi aprovada em 5 de outubro de 1988, tendo sido por ele chamada de Constituição Cidadã, pelos avanços sociais que incorporou no documento.

Em 1989, como candidato a presidente do Brasil recebeu 4,4% de votos. Em 1990, foi reeleito deputado. Ulysses também não disputou a presidência da Câmara e perdeu a presidência do PMDB para Orestes Quercia. Seu prestígio foi retomado em 1992, durante o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Ulysses foi um dos responsáveis por um dos principais golpes sofridos por Collor. Pedia abertamente que a votação do impeachment no Congresso não fosse secreta.

Morreu em acidente aéreo de helicóptero, ao largo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 1992, junto à esposa D. Mora, o ex-senador Severo Gomes, a esposa deste e o piloto. O corpo de Ulysses foi o único que nunca foi encontrado.

Em Aracaju encontra-se no grande bairro Santos Dumont uma praça que leva seu nome, a Praça Ulysses Guimarães. Recebeu essa nomenclatura no dia 16 de novembro de 1992 através da Lei 143/92 e também sua primeira infraestrutura na administração do prefeito Wellington da Mota Paixão e se tornando um dos principais espaços públicos da Zona Norte de Aracaju.

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Ulysses Guimarães, Dr. Ulysses, Dr. Diretas ou Dr. Constituinte era um politico contraditório, um filho da burguesia paulista e um bacharel questionador como dizia seu amigo Sérgio Buarque de Holanda. Mas temos que reconhecer sua boa participação na redemocratização do Brasil dos Anos 80 pós Ditadura e finalizo com uma frase sua em discurso em Aracaju durante a campanha das Diretas: “Só se pode ser um presidente legítimo num regime republicano democrático com o sufrágio universal, fora isso é hospedeiro do poder executivo”. Serve de recado do Dr. Ulysses para o hospedeiro Michel Temer.

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Discente de História na Universidade Federal de Sergipe. Estagiou no Museu do Homem Sergipano e na Biblioteca Pública Epifânio Dória

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