Outubro em Laranjeiras: cabaú, Lambe-sujos e Caboclinhos

O lambe-sujo e os caboclinhos é considerado a maior manifestação de teatro espontâneo ao ar livre do mundo segundo Câmara Cascudo

Foto: Maurício Pisani / El País

Sergipe pode ser pequeno, mas tem um grande passado e uma gigantesca cultura popular. Já ouviu falar em mel de cabaú? Lambe-sujos versus Caboclinhos? Pois aqui no “Senta que lá vem história” vocês ficarão sabendo um pouco sobre a história dessa manifestação cultural.

Dos livros de história do ensino fundamental às páginas dos folhetins globais, a história de um Brasil que colocou de um lado os índios e do outro os negros, aqui ganha novos ares. Uma luta, mas com um tom de ludicidade artística, simplesmente bela, que o fato histórico merece ter. No município de Laranjeiras, na região da Cotinguiba, uma vez por ano, na segunda semana de outubro, trabalhadores e estudantes se transformam em reis e rainhas e protagonizam momentos de êxtase, onde opera a alegria mais sincera que os olhos estrangeiros poderiam um dia presenciar.

Laranjeiras ganha uma atmosfera mágica, onde tudo parece ser possível. O carro puxado por um cavalo, a ialorixá debutante esgueirada na janela de casa, uma parede tatuada de mãos. O auto popular da contenda dos Lambe-sujos contra os Caboclinhos é realizado anualmente e atrai muitos curiosos, sejam eles turistas ou pesquisadores. A beleza das indumentárias e a folia dos maracatus são atrativos unânimes, além da divertida brincadeira de “melar” e das corridas dos chicotes dos taqueiros. A guerra entre os Lambe-sujos e Caboclinhos é uma representação das investidas que os indígenas faziam aos quilombos, a mando dos capitães-do-mato dos engenhos, para derrotar e aprisionar os negros escravos fugidos, posto que os índios conhecessem melhor a região e teriam como recompensa bens materiais que pudessem arrecadar dos negros.

Foto: Maurício Pisani / El País
Foto: Maurício Pisani / El País

Na madrugada do domingo, às 4 horas, inicia-se a alvorada de foguetes de artifício e o primeiro encontro do grupo dos negros, os Lambe-sujos, na casa do rei. Nas primeiras horas da manhã, também os caboclinhos começam o seu ritual. Em um determinado momento da festa os negros tentam roubar a rainha dos caboclinhos, mas são presos e levados de porta em porta pelos guerreiros que os capturaram, para que paguem pela sua liberdade. À tarde, há uma tradicional batalha pela libertação da rainha, tendo a vitória dos caboclinhos. O grupo musical que acompanha o folguedo é composto por ganzás, pandeiros, cuícas, tambores e reco-recos.

Foto: Maurício Pisani / El País
Foto: Maurício Pisani / El País

Na festa do Lambe-sujo, além da música e cantos, a cultura também é contada através dos trajes dos personagens do festejo. Os negros usam calção vermelho, na cabeça uma espécie de capacete, ou gorita, pés descalços e, como arma, uma foice de madeira. O rei usa calça vermelha, camisa de manga comprida e colete. A princesa traja um vestido de sirê, mangas curtas e diadema de papelão. Mãe Suzana usa bata vermelha com retalhos variados, lenço na cabeça e um cesto de palha cheio de latas velhas e objetos imprestáveis. Os caboclinhos usam traje convencional de índio, saiote e cocar de penas.

Foto: Maurício Pisani / El País
Foto: Maurício Pisani / El País

Os Lambe-sujos pintam os corpos de tinta preta extraída do melaço de cabaú, proveniente da cana-de-açúcar muito abundante na região da Cotinguiba. Por sinal, esses brincantes se travestem de negros para lembrar os escravos dos inúmeros engenhos existentes na região, vestem calções e gorros vermelhos e usam uma foice de madeira como arma, símbolo do trabalho no canavial. Já os caboclinhos têm os corpos pintados de tinta xadrez vermelha, usam cocares e saiotes de penas, pulseiras e colares e usam arcos e flechas.

Foto: Maurício Pisani / El País
Foto: Maurício Pisani / El País

Às onze horas do dia, todos se dirigem às portas da igreja da Matriz, onde o pároco da cidade dará a segunda benção à festa e aos grupos. Acontece a primeira embaixada, que é o enfrentamento dos grupos através de seus líderes. O grupo indígena se recolhe para o almoço, enquanto os lambe-sujos se dirigem à casa do rei para a tradicional feijoada, que foi preparada pela esposa do rei e líder do grupo, atualmente o senhor Zé Rolinha, com ingredientes doados pela população. Em determinado momento por volta das quinze horas, acontece uma embaixada, que seria a representação de um possível flagrante dos negros pelos índios. Os negros conseguem fugir. Com o passar das horas já se dirigindo para o fim da tarde, os dois grupos se encontram na via rente ao local onde está montado o quilombo (o mocambo).

Acontece mais uma embaixada, em que os líderes dos Lambe-sujos e dos Caboclinhos se enfrentam com espadas e varas. Os negros vencem mais uma vez. Então os índios saem de cena, e os negros vão para o quilombo, onde acontece o auge da evolução do grupo. Um mastro foi levantado na noite anterior à festa, e nele sobe um negro Forro para ficar de vigia. Quando os índios se aproximam ele sinaliza, e os negros ficam a postos. Acontece mais uma embaixada, que tem defesa dos líderes, do Pai Juá com seus feitiços e mais uma vez os negros vencem. Então na última embaixada, com uma demora maior na representação da disputa, o cacique dos Caboclinhos acaba vencendo e os outros índios o ajudam a aprisionar os outros negros.

Foto: Maurício Pisani / El País
Foto: Maurício Pisani / El País

O folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo no Dicionário do folclore brasileiro aponta variante dessa Festa em Alagoas onde é conhecida por Quilombos. Lá, os ‘Lambe-sujos’ (os negros) usam para a cobertura da cabeça chapéus de palha, em vez de gorro e têm um rei e uma rainha. Contrário ao ritual atual da Festa de Laranjeiras, a rainha dos negros é que é raptada pelos Caboclinhos. Não há comissão para negociar a rendição. Há dança dos negros ao som do canto Samba nêgo / branco não vem cá / se vier / pau há de levar, e duelos de espada (com o rei) e de foice (com os demais elementos do grupo). No final, os caboclinhos penetram no ‘quilombo’. O lambe-sujo e os caboclinhos é considerado a maior manifestação de teatro espontâneo ao ar livre do mundo segundo Câmara Cascudo. Hoje, segundo o Ministério da Cultura, a festividade em Sergipe cresce ao contrário de outras regiões do Brasil e vem se tornando um exemplo de salvaguarda do nosso patrimônio nacional cultura.

Esse patrimônio localiza-se em Laranjeiras, que fica a 24,4 Km da capital sergipana. É muito pertinho. Na festa dos Lambe-sujos e Caboclinhos a mística da festividade é singular, é a história aos seus olhos e vale a pena conhecer e vivenciar.

Compartilhar

Discente de História na Universidade Federal de Sergipe. Estagiou no Museu do Homem Sergipano e na Biblioteca Pública Epifânio Dória

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta