“Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e ao mundo,
O poeta Zé Raimundo
Começou a castrar jumento.
Teve um dia um pensamento:
Aquilo tudo é boato
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento”

O editorial parece inspirado em alguma estrofe de Zé Limeira, o poeta do absurdo. Não por técnica literária, mas pelo teor dos fatos mencionados. Sem a beleza das rimas populares, os fatos de Sergipe, articulados, revelam um cenário político e social preocupantes. Os absurdos vão desde o crime no Parque dos Falcões até o atrevimento do deputado “homicida”. Do fechamento das agências bancárias à prisão de um cavalo por ter dado um coice num carro.

No último domingo, 12/11, o Brasil, e especialmente Sergipe, ficou chocado com o crime ocorrido no Parque dos Falcões. Além de roubar dinheiro e animais, uma quadrilha agrediu os construtores desse tradicional projeto de recuperação de aves. Só pelo ato em si, já gera solidariedade. O absurdo é se torna mais grave porque a reprovação geral é utilizada por oportunistas para levantar pautas conservadoras.

Um desses oportunistas é o deputado André Moura. Depois de dizer que “bandido bom é bandido morto”, agora lança texto pedindo penas mais duras. Além de se aproveitar do fato trágico, o que já é repugnante, ainda cometeu outro absurdo. Afinal, não seria um disparate um criminoso pedir penas mais duras? Chamado de “homicida” por Renan Calheiros, Moura é investigado por tentativa de homicídio, além de ser réu em três ações penais. Isso sem falar dos crimes ainda obscuros em meio à gangue de Eduardo Cunha e Michel Temer. São “ossos do ofício” de presidente do “Sindicato de Ladrões” – o conhecido “Centrão” do Congresso Nacional. Enfim, Improbidade poderia ser seu sobrenome.

Se é parte do próprio crime, por que André Moura defende penas mais duras? Porque acredita que não será pego pelo sistema penal. Acredita que terá todas as garantias constitucionais, além de outros privilégios tramados em garagens de Brasília. Nessa hora, vai defender direitos humanos, para si, somente. Por isso seu projeto de segurança se resume em maiores penas e redução da maioridade penal. A ele não interessa equipar os órgãos de investigação, valorizar a função policial e resolver a questão das drogas. Ao contrario, lhe interessa a permanência do caos. É disso que se sustenta o discurso odioso e a “indústria da bala”, da segurança privada, lobby que também representa.

É somente com base na força do poder político e econômico que André Moura tenta aparecer como arauto da moralidade. Publica os textos como se fosse autoridade capaz de dizer quem é certo ou errado. Não consegue esconder que seu interesse religioso é mais profano e menos sagrado. Só se coliga aos vendilhões de templos, com o intuito de lhe render votos. Pelo desrespeito à democracia, já é absurdo aceitar o “homicida” como intermediador do orçamento da União com o Estado. O cúmulo seria admiti-lo como autoridade moral.

Apesar de tudo escancarado, os fatos não parecem tão absurdos a outras pessoas. Semana passada, 06/11, o “homicida” presidiu a mesa de abertura do Congresso Internacional de Contas Públicas. Convidado pelo Tribunal de Contas do Estado – de conselheiros igualmente ilibados –, debateu sobre governança e gestão das cidades. Certamente, André deu muitos exemplos de sua gestão honesta na prefeitura de Pirambu. Com uma personalidade dessa, o TCE sinaliza para sociedade seu compromisso com a rigidez na fiscalização das contas públicas.

Os absurdos vão além dos crimes do Parque dos Falcões e do líder dos opositores ao governo de Sergipe. Os despropósitos se manifestam também pela redução dos serviços públicos. Estão acontecendo até manifestações populares e de autoridades para evitar o fechamento de agências bancárias. Mais recentemente, em Salgado e São Domingos. Assim, o retrocesso se revela até no acesso aos serviços dos bancos públicos. É um retorno ao século passado.

Para completar, a Polícia Militar consegue surpreender mesmo diante de todos os absurdos. Em Nossa Senhora da Aparecida/SE, nossa PM prendeu um cavalo por ter dado um coice num carro. Desconsiderou o drama da segurança pública, a já questionada credibilidade da instituição e meteu o bicho no xadrez: “Teje preso!”.

Tal como poema de Zé Limeira, o cenário atual associa aspectos antigos e novos, muitas vezes contraditórios, de difícil compreensão. Os retrocessos nos colocam numa estrofe do absurdo, sem métrica, nem rima. No cenário, há em comum o contexto de ofensa a valores humanistas e democráticos. Os direitos à vida, à segurança e aos serviços públicos vêm sendo desrespeitados. Também as contradições das instituições palpitam cada vez mais, principalmente do sistema político. Para que o absurdo seja mais característica da arte e menos da política, é necessária a defesa intransigente das conquistas democráticas.

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