Por Ivan Siqueira Barreto*

Uma homenagem às gerações que nos cantaram…

Eis que vemos os sinais de um ciclo histórico que se encerra com vistas à efervescência que gesta e sugere renovação política e cultural. 2017, o ano marcado pelo caos político e pelas mortes de Antônio Carlos Belchior (abril), Cearense de Sobral, autor de diversos manifestos cantados; assim como de Luis Carlos do Santos (Luiz Melodia), poeta carioca do morro do São Carlos/Estácio.

O diálogo precioso entre os artistas e a realidade sempre foi meio singular de manifestação social. A música, especificamente, é um dos instrumentos mais suntuosos da comunicação popular, capaz de mover consciências à crítica ao tempo que mexe o corpo ou promove lágrimas. Tão importante quanto ler Darcy Ribeiro é sambar; saber da bossa nova e sua aspiração jazzística enquanto linguagem negra norte-americana! Escravidão e blues, guerra da secessão, religião e jazz, tango, mambo, forró, repente e trovas… A América cantada dá brilho à história movida pelo motor da resistência.

Em tempo, no Brasil, criaram utilitariamente o conceito de que “protesto” é coisa sofisticada, não é popular. É coisa de Chico Buarque, porque na verdade o povo gosta de “música sem conteúdo”! Seria uma verdade, ou um conceito dominante pela alienação? Não foi Benito de Paula que mesmo sob o preconceito do selo “brega” cantou: “tributo a um rei esquecido” em plena ditadura? O que queria dizer Luiz Gonzaga com a profundidade de “Só trazia verdade e a cara, viajando no pau de arara”? Óbvio, não são naturais estes selos “o povo gosta…”. Ora, quando, pelas elites, musica denominada caipira vinculava-se de forma jocosa à imagem caricatural do atraso (dos trabalhadores rurais), não havia glamour. Porém, hoje, quando a musica dita “sertaneja moderna” se associa a valores e símbolos do latifúndio-agribusiness, ostentação, objetificação da mulher e nenhum retrato narrativo da vida sertaneja; há promoção!

Podemos dizer então que há uma disputa pelos símbolos entre o que é criado pelo povo e aqueles que trabalham para tornar tudo mercadoria, que nada mais é que: escala, descartabilidade/prazo e valor.

É preciso dizer às novas gerações: a descartabilidade é inimiga das transformações de longo prazo. Não mirem o glamour da ostentação momentânea! As classes dominantes tentaram abafar o jazz nos EUA e a Capoeira no Brasil até serem vencidas pela força e magia, assim como atualmente trabalham para desvincular o RAP da periferia.

Muitos dedicaram a vida para cantar seu povo, fazendo arte em seu sentido pleno de aspirar liberdade com a maior das suas armas, que é realizar em sonho e sentimento uma realidade impossibilitada pelas condições materiais objetivas.

Nesses tempos de golpes parlamentares, congresso comprado, rede globo enquanto fonte de verdade apoiando os desmontes de direitos sociais e massacres; é preciso celebrar a simbologia da geração que nos pariu resistente com Luiz Melodia: “Eu sou o samba/A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor/Eu sou o rei do terreiro(…)”; Belchior: “Não cante vitória muito cedo, não/Nem leve flores para a cova do inimigo/Que as lágrimas do jovem/São fortes como um segredo/Podem fazer renascer um mal antigo” e celebrar o porvir jovem do RAP ao Samba propagado na internet e desenvolvido nas ruas. As mobilizações deverão novamente serem os palcos da nova geração que cantará a reviravolta popular no Brasil, onde ainda “Sonhar não custa nada”!

*Ivan Siqueira Barreto é Engenheiro Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento e Meio ambiente, atuou como extensionista e pesquisador da questão agrária no sertão sergipano e é militante da Consulta Popular de Sergipe

Compartilhar

Deixe uma resposta