Quando a magreza vira uma obsessão – A vida no limite

Foto: GETTY

“Estou no controle. Nada de ruim vai acontecer” – Ellen, diagnosticada com anorexia nervosa, personagem principal do filme “O mínimo para viver” (Netflix) que tem como tema os transtornos alimentares.

Ellen como a maior parte dos pacientes que possuem algum transtorno alimentar acredita que está no controle da situação. Não! Eles não estão no controle!

A anorexia, assim como a bulimia, é classificada como um transtorno mental em conjunto com uma grave perturbação do comportamento alimentar, de causas multifatoriais: fatores genéticos, temperamentais e psicológicos que são engatilhados por fatores de estresse no ambiente. A anorexia é caracterizada por dietas altamente restritivas e/ou jejum, já a bulimia por um comer compulsivo excessivo seguido de indução de vômitos. Há uma linha tênue entre tais transtornos, como por exemplo, um anoréxico pode ter episódios bulímicos e vice-versa.

De forma geral ninguém para de comer com o objetivo de se tornar anoréxica, geralmente ocorre pelo desejo de perder peso ou até mesmo por questões que fogem do controle como algum problema emocional. Nem sempre é simples detectar um transtorno alimentar afinal dietas, exercícios físicos e uma preocupação com o corpo e peso são comuns nos dias atuais, porém quando essa preocupação vira uma obsessão devemos ficar em alerta. Pesquisas mostram que a incidência de transtornos alimentares praticamente dobrou nas últimas duas décadas. A busca por um padrão de beleza (magreza), tem um papel fundamental no aumento do número de casos.

A anorexia possui várias características, dentre as principais: recusa em manter o peso mínimo normal para a idade e altura ou acima deste, medo intenso em ficar acima do peso ou ganhar peso, mesmo com peso inferior – fobia de peso, alteração na percepção da imagem corporal (se enxerga gorda, quando obviamente esta abaixo do peso), amenorreia (ausência de menstruação por 3 ciclos).

Inicialmente ocorre uma restrição alimentar, excluindo alimentos até chegar ao jejum total com a utilização ou não de condutas de purga (laxantes, vômitos, diuréticos e atividade física excessiva). As atitudes dos pacientes anoréxicos diferem muito, mas podemos visualizar algumas mais comuns: não sentar a mesa para não se sentirem forçados a comer e se forem forçados podem esconder ou jogar fora os alimentos, rituais alimentares (pesar alimentos, contar calorias, cortar os alimentos em pedaços menores, demorar exageradamente para comer, medir líquidos, repetir mentalmente o que foi ingerido), vestir várias roupas (para esconder a magreza), esconder alimentos, olhar exageradamente no espelho, pesar-se com frequência, intolerância ao frio, constipação, isolamento, alteração de humor, perfeccionismo, dentre outros.

“Não saía mais de casa, porque não podia comer nada que fosse calórico demais. fui começando a viver em torno da dieta. Tinha medo, aliás, pânico de engordar; me pesava três vezes por dia. Se aumentasse o peso da manhã em relação ao da tarde, eu cortava a refeição da noite. Comecei a contar calorias, só que eu sempre aumentava umas 200 em cada alimento, por segurança. Tomava laxantes, inventava mil desculpas para pular as refeições, vomitava. Tudo o que eu ingeria vinha acompanhado de medo, culpa e paranoia. Havia dias que não conseguia mais me levantar da cama, meus cabelos começaram a cair, meu coração começou a bater com um ritmo mais lento, e tive de ser internada para fazer exames do coração. Tinha um medo enorme de morrer, mas meu medo maior era de ficar gorda novamente. Mesmo que todos digam que você está horrível, que parece uma caveira, você se olha no espelho e vê a tão adorada e almejada magreza. No final eu estava com 35 kg, meu sonho de que eu seria feliz com a magreza havia acabado, só conseguia ser infeliz. Com ajuda de um médico muito especial, consegui sair do fundo do poço e recuperar a saúde. Levei dez anos para conseguir me livrar totalmente da anorexia. Tenho experiência para afirmar que magreza não é sinônimo de saúde, nem de felicidade.” C. M, 31 anos (diagnosticada com anorexia aos 15 anos).

Matérias jornalisticas que ilustram alguns casos no Brasil

No Brasil, 1 em cada 250 meninas é anoréxica, nos Estados Unidos 1 em cada 100 e na Argentina 10 em cada 100. Em geral, depois de intervenções terapêuticas, as taxas de recuperação completa ficam em torno de 50%, recuperação intermediária em torno de 30%. A taxa de mortalidade é maior que 10% e as principais causas são a desnutrição e o suicídio.

A conscientização sobre os transtornos alimentares é de suma importância, procurar ajuda o quanto antes é imprescindível para uma melhor recuperação. Não alimente essa obsessão.

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Kaliane Calisto é Nutricionista (CRN-5/ 7785), Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e Especialista em Nutrição Clínica e Estética

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