Da mistura entre as festas cristãs de santos e os folguedos pagãos criou-se algo único. Com a exploração portuguesa, essas festividades chegaram no Brasil e nelas foram incorporados elementos, costumes e tradições indígenas e africanas que até hoje apresentam novas práticas culturais. No nordeste brasileiro, o São João encontrou o seu principal palco com a colheita do milho e o som do forró enriquecendo ainda mais o mês de junho.

Nesse mês tão especial para nós nordestinos/sergipanos, o centro dos noticiários aracajuanos foi tomado com as manchetes: “Vai ter ou não vai ter Forró Caju?”. Até que o prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB) informou, na última quarta-feira (14), que a edição deste ano não seria realizada. Como a emenda pleiteada junto à União para financiar o evento não foi liberada, o gestor municipal reafirmou seu posicionamento de não utilizar recursos próprios da administração na festa para não comprometer a prestação dos serviços à população.

Edvaldo Nogueira justifica que recebeu a prefeitura de Aracaju com dívidas de R$ 531 milhões, um terço de todo o orçamento do município para 2017, bem como folhas do décimo terceiro e do mês de dezembro em atraso das mãos de João Alves (DEM).

De fato, é compreensível o aperto financeiro que a prefeitura passa neste momento, porém nossa cultura não pode ser escanteada, mesmo em momentos de crise. A cultura é um direito de todos os cidadãos e o Estado deve ser um agente central da política cultural. Por isso, a não realização do Forró Caju nesse ano precisa ser considerada como uma oportunidade de repensar o mês junino em nossa capital.

Nessa perspectiva, para que Aracaju volte a ser um grande arraial, a prefeitura de Aracaju deve propor um Fórum Permanente para debater a política cultural relacionada às festas juninas com diversos segmentos sociais como artistas, intelectuais, dirigentes e funcionários de instituições culturais e cidadãos.

Quanto ao próprio Forró Caju, é preciso repensar o evento que se consolidou nos últimos anos como um mega evento que centralizava todas as atenções e recursos do mês junino. Acabou por engolir todas expressões e atividades culturais para uma única proposta (mega shows num palco destacado e bandas locais num palco secundário) e local de festa (Mercado Central de Aracaju).

Precisamos resgatar/fortalecer os vários polos juninos aracajuanos, descentralizados pelos bairros, com estruturas de shows, concursos de quadrilhas e outros eventos. Como por exemplo, o Gonzagão, Rua São João, Centro de Criatividade, Praça do Siqueira Campos, Arraial do 18 do Forte, Arraial do Bugio, Arraial do Bairro América e os barracões culturais. Esse processo precisa ser dialogado com o Governo do Estado que já está trabalhando num processo de resgate, como é exemplo o Arraiá do Arranca Unha no atual Centro de Criatividade e o Arraiá do Gonzagão. Portanto, o Forró Caju deveria ser a confluência desses inúmeros arraiais espalhados pela cidade.

É preciso fortalecer uma proposta que gere emprego, distribua renda, movimente e valorize a produção cultural sergipana, fazendo com que a cidade festeje o São João nas suas comunidades e celebre o mês junino com muita força e energia.

Portanto, o mês junino aracajuano precisa ser democratizado, descentralizado e plural. Democratizemos o acesso aos bens culturais; a gestão, com a participação efetiva da sociedade nas decisões. Descentralizemos para romper com a separação geográfica centro-periferia; para que o povo seja sujeito cultural e que se perceba como produtor de cultura e não apenas consumidor. E plural, para contemplar as várias faces da cultura, sobressaindo as diferenças e fortalecendo uma proposta democrática.

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