Por Aristóteles Cardona Júnior*

Em maio escrevi no jornal Brasil de Fato sobre a importância da alimentação. Poucos meses depois, estou de volta ao tema. Desta vez, para comentar um pouco sobre esta absurda proposta do prefeito de São Paulo (SP), o João Doria, do PSDB.

Trata-se de um granulado processado com alimentos próximos ao vencimento para ser oferecido a pessoas carentes e até mesmo na merenda escolar. E são tantos os problemas envolvidos nesta história, que decidi colocar em tópicos.

1º – Esta ração não é alimento. Falar de alimentação é falar também de texturas, sabores, sensações. Não basta juntar alguns nutrientes e achar que é uma boa alimentação. Sendo assim, bastaria substituir nossos alimentos por um monte de capsulas e tudo estaria resolvido.

2º – Produção e desperdício. Qual a necessidade de querer oferecer ração para humanos em um país que é um dos principais produtores de comida do mundo? Além disso, o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos. Estimativas apontam que mais de 40 mil toneladas são perdidas por ano no território nacional.

3º – Precisamos de ações estruturantes. Já existem vários programas com experiência e resultados comprovados que poderiam receber mais incentivos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com foco na Agricultura Familiar e o trabalho com alimentação de verdade.

4º – A proposta é um ataque à constituição federal. É uma verdadeira afronta ao artigo 6º da Constituição Federal que assegura, entre outros itens, o direito social à alimentação. Mais uma, em um momento em que tantos artigos da Constituição são atacados no nosso cotidiano.

5º – A composição nutricional é um mistério. Até hoje ninguém faz a menor ideia da composição nutricional, do modo de produção ou até mesmo de quais são os ingredientes desta dita “farinata”, outro nome com qual o produto foi anunciado.

6º – As empresas seriam as grandes beneficiadas. Antes elas tinham que providenciar o descarte dos produtos próximos ao vencimento e, com a proposta em vigor, passariam a não ter mais este custo, chegando até a receber incentivos econômicos, como chegou a ser anunciado.

Minha sensação é que poderíamos passar um bom tempo discorrendo sobre esta proposta sem cabimento. Por ora, fica o consolo da forte rejeição que ganhou corpo na sociedade. E que a elite deste país esteja ciente de que continuamos atentos aos ataques ao direito à alimentação e à nossa dignidade.

Aristóteles Cardona Júnior é Médico de Família no Sertão pernambucano, Professor da Univasf e militante da Frente Brasil Popular de Pernambuco.

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