A Rede Globo alterou o rumo. Do ponto de vista econômico, mantém-se fiel à agenda do mercado, intransigente quanto às reformas do governo. Do ponto de vista político, alterou a rota e, apesar de ter sido trampolim para Eduardo Cunha contra Dilma Roussef, agora tem a pretensão de destituir Michel Temer. Tudo isso no contexto de arrefecimento da Lava Jato, em meio ao movimento para estancar a sangria, com as alterações na Polícia Federal e à suposta ingerência no Ministério Público Federal, em virtude da nomeação para a Procuradoria Geral da República (PRG) da opositora de Janot, Raquel Dodge.

A adesão à tática global tende a crescer. Exemplo é a posição de Laércio Oliveira (SD-SE), na votação da Comissão de Constituição de Justiça, a favor da admissibilidade da denúncia contra Michel Temer. Laércio é mais um empresário-deputado do “centrão” (“achacadores”, como prefere dizer o ex-ministro Cid Gomes) a se antecipar ao definhamento do Vampirão. Esse movimento tende a crescer, ainda mais com o advento de novas denúncias pelo PGR.

No caso específico de Laércio, além do interesse comum do modelo econômico privatista neoliberal, em favor das reformas, há ainda outra relação, de ordem local, que o motiva a seguir o script global. Laércio sabe que nem mesmo o petismo conseguiu vencer eleições para o governo do Estado sem o apoio da família Franco, proprietária da TV Sergipe, afiliada da Rede Globo (além da afiliada da Record, rádios e jornais), o que já seria motivo suficiente para o fisiologista se curvar à agenda global local. Ademais, certamente lhe faz bem estar com sua classe.

Além disso, é conhecido de todos que um dos membros da família, o senador-suplente Ricardo Franco foi referido na colaboração premiada de Mônica Moura, como sendo a pessoa que levava o dinheiro espúrio para pagamento da campanha de Francisco Rollemberg ao governo do Estado em 2002. Dito assim, como transportador de dinheiro, o Ricardo poderia ser o “Rocha Loures sergipano”. Dessa forma, assim como interessa ao Franco, estancar a sangria e arrefecer o sistema de justiça que envolve a Lava Jato, inclusive as investigações decorrentes acerca de temas alheios à Petrobrás, são medidas também assumidas por Laércio ao se coligar com a tática antidemocrática das eleições indiretas.

Afinal, apoiar Temer ou eleições indiretas são opções pelo estancamento. Querem negociar a sucessão de Temer. Um dos reflexos da eleição indireta é que, agora, Rodrigo Maia pode assumir com ainda maior protagonismo da Rede Globo, num momento em que surgem notícias acerca da possível delação do ex-ministro Antonio Palocci, a partir da qual poderiam ser apontadas provas sobre crimes relacionados à Globo. Em noticiário do dia 16/07, a Rede Record já demonstrou diversas provas de sonegação fiscal, contas em paraísos fiscais, empresas de fachada, enfim, motivos que revelam o interesse do grupo econômico em estancar essa sangria.

Entretanto, o que estarrece é que os reflexos da mudança tática da Globo e do oportunismo de Laércio e dos achacadores não são capazes de apontar qualquer perspectiva de retomada de crescimento e aumento de empregos. Afora a animação pelo Ibovespa, decorrente também da comemoração sobre o possível reflexo judicial da inelegibilidade de Lula, aprovou-se a reforma trabalhista e, no mesmo dia da sanção presidencial, o Bradesco anunciou plano de demissão, com pretensão de dispensa de 10 mil empregados, gesto repetido essa semana pela própria Caixa Econômica Federal, com a pretensão de dispensa de 5,5 mil empregados públicos.

O cenário dessa semana revela que nem a Globo nem os achacadores apresentam propostas econômicas democráticas ao país. São produtores de exclusão. A Rede Globo, tal como fez na década de 80, com medo da soberania popular, agora combate o movimento pelas “Diretas Já!”, o qual é aprovado por cerca de 90% do povo brasileiro, conforme Paraná Pesquisas. Ou seja, o povo entende que o “Fora Temer!” não pode ser negociado pela Globo e os achacadores. O aprendizado fundamental é que o enfrentamento a esse poderio da Rede Globo e do poder econômico sobre o sistema político deve ser conteúdo obrigatório dessa movimentação política popular que se faz necessária antes e após 2018.

Deixe uma resposta