Por Damião Rodrigues*

O sertão sergipano enfrenta a pior seca dos últimos 50 anos. Já são mais de seis anos que não chove com regularidade e quantidade suficientes para encher os tanques, barragens e cisternas. Os cultivos tradicionais, onde o sertanejo planta na esperança de uma boa colheita, vem morrendo ano após ano, que por sua vez impossibilita a produção de alimentos para os animais e o resultado é a triste cena do sertanejo vendo seu gado caindo fraco de fome e morrendo uma a uma todos os dias, acumulando-se as carcaças na terra seca.

A falta de água no sertão sergipano nos provoca algumas indagações, como por exemplo: Estamos diante de uma realidade que é ter o rio São Francisco passando a poucos quilômetros e ao mesmo tempo vemos o nosso povo passando sede e animais morrendo por falta d’água. Se foi possível levar água desse mesmo rio, com a tal transposição, para centenas de quilômetros de distância, por que não trazer para quem mora vizinho?

É claro a falta de compromisso e a vontade de se fazer justiça social para com o sertanejo, que há anos espera o tão sonhado Canal do Sertão sair do papel para amenizar as dificuldades enfrentadas todos os anos e que não seja necessário se humilhar nas portas das prefeituras pedindo um mero carro pipa.

Enquanto isso, a seca e as consequenciais dela se tornam matérias especiais de canais de TVs, viram poesias, músicas, livros etc. A imaginem emblemática do olhar triste do camponês a espera de chuva ou então da mulher grávida com um pote na cabeça pisando na terra rachada e seca se torna um roteiro cinematográfico que já estamos cansados de ver e rever. Eis aí a indústria do capital midiático preconceituoso que vai colaborando com a indústria da seca e em meio a isso tudo se cria umas tais de ações milagrosas de combate à seca. É o mesmo que tentar combater o que é incombatível e esquecem que precisamos é de políticas que fortaleçam as práticas de convivência com a aridez da nossa terra como também o clima seco do sertão que abrigou a caatinga insistente e resistente.

Pois é meu compadre e minha comadre, mais uma noite que relampeia no norte, só não sei lhe dizer se a asa branca ainda existe para ouvir o ronco do trovão e quem sabe pousar no mandacaru que ainda nos enche de esperança fluorando nessa seca ferrenha. Esperança. Sabendo que a seca sempre existirá, quem sabe um dia ela nos deixe de castigar, pois, próximo ano aqui vai tá cheio de doutores engravatados pedindo nossos votos e depois somem dum jeito que nós não sabemos pra que bandas eles deram.

E não foi só a seca que sempre nos castigou, mas também as cercas que nos impediram de ter a terra e conquistar o pão. É preciso muita rebeldia para as cercas derrubar e teimosia para dos coronéis se libertar. De tantas cercas que ainda existem e a indústria da seca que persiste, o que nos resta é lutar, pois só não basta romper as cercas do latifúndio é preciso saber dizer para nosso povo que talvez não falte água no sertão e sim falte justiça. É assim que seguiremos ecoando nossa voz dizendo: “É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer”.

*Damião Rodrigues é Agente de Saúde do município de Poço Redondo e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

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Correspondente da Expressão Sergipana no Sertão Sergipano, Comunicador Popular, Ribeirinho, Agente de Saúde do município de Poço Redondo e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

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