Sergipana dará nome à Biblioteca do Arquivo Nacional

Mulher sergipana, negra, ativista e historiadora formada pela UFRJ, Maria Beatriz do Nascimento, foi escolhida em votação para nomear a Biblioteca do Arquivo Nacional, localizada no Rio de Janeiro

Foto: Arquivo Nacional

Nesta segunda-feira (19), o Arquivo Nacional anunciou o resultado do concurso para nomear a Biblioteca do Arquivo Nacional. Foram 914 votos em cinco nomes propostos, com a historiadora, intelectual, pesquisadora e ativista negra sergipana Maria Beatriz do Nascimento sendo a mais votada com 84% dos votos.

Veja o resultado final:

Maria Beatriz do Nascimento: 768 votos (84%)
Maria Odila Fonseca: 86 votos (9,4%)
José Honório Rodrigues: 29 votos (3,1%)
Joaquim Machado Portela: 18 votos: (1,9%)
Capistrano de Abreu: 13 votos. (1,4%)

A Biblioteca do Arquivo Nacional foi criada pelo regulamento do Arquivo do Império (anexo ao decreto 6164 de 24 de março de 1876) para reunir além da coleção impressa de legislação brasileira, obras de direito público, administração, história e geografia do Brasil. Com o passar dos anos se tornou uma importante fonte de informação e pesquisa para os estudos de História do Brasil e de Arquivologia, pois mantém intercâmbio de publicações com arquivos estaduais e municipais brasileiros, além de arquivos nacionais e regionais de vários países.

Seu acervo é composto não só por livros, mas também por folhetos, periódicos, teses, dissertações, obras de referência, uma coleção de publicações oficiais do Poder Executivo Federal, além de um expressivo acervo raro com exemplares que datam do século XVI a primeira metade do século XX e documentos de pequena tiragem ou circulação restrita.

Conheça um pouco mais sobre a história de Maria Beatriz do Nascimento:

Foto: Arquivo Nacional

Intelectual, pesquisadora e ativista, Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento. Ela e seus dez irmãos migraram com a família para o Rio de Janeiro na década de 1950. Com 28 anos iniciou o curso de graduação em História, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formando-se em 1971. Durante a graduação fez estágio no Arquivo Nacional com o historiador José Honório Rodrigues.

Formada, passaria a trabalhar como professora de História da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, articulando ensino e pesquisa. Nessa mesma época, passaria a exercer sua militância intelectual através de temáticas e objetos ligados à história e à cultura negras. Esteve à frente da criação do Grupo de Trabalho André Rebouças, em 1974, na Universidade Federal Fluminense (UFF), compartilhando com estudantes negros universitários do Rio e de São Paulo a discussão da temática racial na academia e na educação em geral. Exemplo dessa militância intelectual foi a sua participação como conferencista na Quinzena do Negro, realizada na USP, em 1977, evento que se configurou como importante encontro de pesquisadores negros.

Concluiu a Pós-graduação lato sensu em História, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981, com a pesquisa “Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”, mas seu trabalho mais conhecido e de maior circulação foi o filme Ori (1989, 131 mim), de sua autoria, dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. O filme, narrado pela própria Beatriz, apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo.

Foto: Arquivo Nacional

Beatriz Nascimento, ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas relacionadas ao racismo e aos quilombos, abordando a correlação entre corporeidade negra e espaço com as experiências diaspóricas dos africanos e descendentes em terras brasileiras, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. Seus artigos foram publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, Isto é, jornal Maioria Falante, Última Hora e a revista Manchete.

Segundo Rattz, Beatriz, junto com outros pesquisadores como Eduardo Oliveira, Lélia González e Hamilton Cardoso, trabalharam para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade social na universidade e fortalecesse o discurso político do movimento negro. Além da militância intelectual, Beatriz era poetisa. Sua poesia traz à cena a experiência de ser mulher negra. Essa sensibilidade se traduziu em toda sua escrita.

Estava fazendo mestrado em comunicação social, na UFRJ, sob orientação de Muniz Sodré, quando sua trajetória foi interrompida. Beatriz foi assassinada ao defender uma amiga de seu companheiro violento, deixando uma filha. Faleceu em 28 de janeiro de 1995 no Rio de Janeiro.

*Texto retirado do portal Cor da Cultura, que teve como referências:

RATTZ, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz nascimento. SP: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Instituto Kuanza, 2007.
RATTZ, Alex. in Revista Eparrei, No. 8. Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra, 2005

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