A notícia mais comentada da semana em Sergipe foi a troca do secretariado estadual do governo de Jackson Barreto (PMDB). Anunciada desde os fins de 2016, já havia muita expectativa em torno dos nomes que assumiriam as 7 ou 8 secretarias a serem modificadas. Na última quinta, 26, foi divulgada a esperada lista e com ela nenhuma novidade. Mais uma famosa dança das cadeiras para permitir o rearranjo das forças políticas e alianças em torno de um bloco de poder.

No Brasil, historicamente, os cargos públicos são assumidos por interesses partidários e sua distribuição tem ligação direta com os resultados eleitorais – com a frequente indicação de pessoas sem habilidade técnica para gerir as pastas a que são destinadas desde o alto escalão até os cargos comissionados. Em Sergipe essa relação é ainda mais estreita e é comum vermos políticos “mudando de lado” em troca de cargos que lhe sejam úteis.

Infelizmente, secretarias que deveriam propor políticas públicas para o bem-estar da população, como saúde, educação, desenvolvimento e inclusão social, infraestrutura, meio ambiente, são negociadas para que seus orçamentos e ações possam favorecer determinados grupos de interesses e servirem de trampolim político para os pleitos seguintes.

A aliança de Jackson Barreto com Laércio Oliveira (SD), que estiveram, no último período, em lados opostos nos principais embates políticos nacionais e estaduais (a exemplo do impeachment da presidenta Dilma e do apoio aos Amorins em 2014) desnuda a intencionalidade deste plano que desarticula um elo da oposição e reorganiza em seu entorno peças fundamentais da campanha de Valadares Filho à prefeitura de Aracaju. O novo aliado é o responsável pela indicação de José Augusto Pereira de Carvalho para a Sedetec (Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia). Fica evidente para o eleitor menos desavisado que o motivo real da troca de secretariado não é qualificar a gestão estadual e sim realinhar as forças políticas após o golpe e as eleições municipais.

Laércio Oliveira é dono de uma das principais empresas de terceirização do estado (Multiserv), que também é uma das maiores prestadoras de serviços às administrações públicas. Seu interesse pela aprovação do projeto de lei das terceirizações mobilizou o Deputado Federal às mais variadas articulações no Congresso Nacional, assim como os interesses da Fecomércio, federação que preside em Sergipe, devem mobilizar as ações de seu grupo político em Sergipe, que agora controlará as decisões sobre o desenvolvimento econômico estadual, e a poderosa Codise (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Sergipe), responsável pela liberação de isenções fiscais e atrativos comerciais e dona de grandes porções de terra – o lobo tomará conta do galinheiro. E mais, o que pretende Laércio Oliveira “cuidar” da Codise, que detém a maior quantidade de terras do estado, assim como “cuidar” do INCRA (O presidente Haroldo Álvaro Freire Araújo Filho é indicação do SD), autarquia do governo federal?

Na mesma linha segue Fábio Henrique, que também deixa a base de apoio dos Valadares ao assumir a pasta de Turismo após encerrar seus dois mandatos como prefeito de Nossa Senhora do Socorro, derrotado pelo candidato apoiado pelo governador. Já Zezinho Sobral volta ao secretariado depois de deixar a pasta da saúde quando acreditava que seria o candidato de Jackson para a prefeitura de Aracaju. A secretaria de Saúde, inclusive, tem o hábito de ser utilizada para projetar possíveis candidatos pela magnitude de seu orçamento e visibilidade de suas ações para a população. Por isso, não é de estranhar que tenha sido assumida por Almeida Lima (que já passou de aliado a inimigo tantas vezes que perdemos a conta) e andava meio esquecido na política sergipana, com uma atuação “sem brilho” na Adema (Administração Estadual do Meio Ambiente).

A Adema por sua vez, será conduzida por Chico Dantas, que era o comandante da Sedetec e, na dança das cadeiras, ainda conseguiu sentar em um lugarzinho bom para o PRB, que controla parte do sertão sergipano e tem necessidade de movimentar as questões ambientais. No seu discurso de posse sinalizou positivamente ao empresariado afirmando que é preciso respeitar a legislação, mas dar celeridade para que os empreendimentos se realizem. Além da Adema, o PRB emplaca o Pr Heleno, que chegou a ser cogitado para a pasta, no escritório de Sergipe em Brasília, já que o partido não “abriria mão” da Sedetec sem uma boa moeda em troca. Outro que garantiu o lugar na dança foi Antônio Hora, que deixa a Justiça para assumir o Esporte e Lazer, que segundo o próprio governador era o lugar certo para ele. A única indicação para a qual não há muita contestação é o Professor Josué de Passos, que assume a Secretaria da Fazenda, deixando órfã a Comissão Estadual da Verdade, que pelo visto deve ter incomodado muita gente e não anda operando muito nos últimos períodos.

A música está alta e a dança já está rolando no salão e olha que o carnaval ainda nem começou. O realinhamento visando às eleições de 2018 coloca Jackson Barreto nas manchetes como o “todo poderoso” de Sergipe, capaz de desarticular a oposição e constituir um grupo político imbatível no próximo cenário eleitoral. A história do governador que já foi aliado de todos os grupos passando dos Francos, Valadares, DEM-João Alves ao PT e PCdoB, evidencia a política por conveniência e necessidade de perpetuação no poder.

Nessa dança, a Democracia é quem fica sem cadeira. Não é tarefa simples mexer nos passos ensaiados há décadas pelos atores políticos com os setores empresariais, comerciais e as oligarquias estaduais. É preciso mudar o sistema político como um todo, combinando e subordinando as lutas ideológicas e institucional com a luta social. É preciso, também, redesenhar os contornos do poder através de uma Constituinte exclusiva e soberana. Ou chegaremos lá, ou o povo continuará caindo de bunda no chão.

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