Um comentário sobre a política de cotas

Por Carlos Franciscato*

Nesta época de disputa por vagas nas universidades, eu gostaria de fazer um comentário sobre a política de cotas.

Como professor universitário, aprendi muito com a política de cotas. Acompanhei seu debate desde o início na minha universidade, a UFS (Sergipe), da qual sou professor há 22 anos. Lembro-me que, na discussão da proposta nos conselhos internos da UFS, participei na fase intermediária fazendo ponderações críticas à política de cotas. Questionei duas coisas na época:

1) Como era possível a UFS abrir mão da lógica do mérito que, para mim, é um princípio acadêmico fundamental? Isto é, criar uma lei em que não exatamente “os melhores passariam” me causava pavor.

2) Outro aspecto que me incomodava na proposta era a definição de um percentual de 50% entre cotistas e não cotistas, sem base em nenhum estudo para dizer que isto iria gerar uma situação de justiça social maior do que a situação anterior. Meu medo era que números aleatórios, para mim inspirados apenas por um princípio político de “meio a meio”, sem critérios, geraria outra desigualdade. Cheguei a sugerir: por que não 20% ou 30% de vagas para cotistas? Mas eu também não tinha estudos para defender esses percentuais e eles não foram considerados.

De fato, meu balanço agora me diz que eu estava errado nessas ponderações críticas. A universidade mudou para melhor:

– Atende mais à sua função social como universidade pública de qualidade.

– Não houve perda do mérito acadêmico, pois o desempenho dos cotistas tanto na seleção das vagas quanto posteriormente, dentro da universidade, é em linhas gerais igual aos não cotistas. Então, por que eles não conseguiam antes entrar em mesmo número na universidade? Suponho que por detalhes, por décimos de pontuação, e, nestes casos, as origens educacional, social e familiar dos demais candidatos de classe média e alta faziam a diferença nas condições de preparação para as provas.

– Vejo em sala de aula e no convívio com outros cursos que aumentou a diversidade na universidade: social, cultural, étnica, geográfica e, com isso, aumentou também a pluralidade de modos e experiências de vida, concepções, ideias… Tudo isso é muito bom e confirma o que uma universidade deve ser em sua essência.

Minha impressão pontual é que a maior diversidade geográfica que menciono significa que mais pessoas de outros estados, em que a escola pública é melhor do que a sergipana, estão conseguindo entrar na UFS. E isso é um reconhecimento de mérito inegável.

Na época da discussão sobre a implantação da política de cotas na UFS, eu tinha uma ideia de que ela não deveria ser uma ação isolada de nossa universidade, mas, na verdade, uma política de compromissos com o governo do estado (principalmente) e com as prefeituras. Ou seja, a UFS oferecer vagas para a escola pública e, ao mesmo tempo, pressionar o governo do Sergipe a assumir metas públicas de melhoria de seu padrão educacional que, sabemos, é um dos piores do País. Isto não aconteceu e continuamos não tendo esse compromisso incisivo e nem ações ou resultados concretos.

A UFS poderia estar servindo mais aos sergipanos, principalmente aos de menor renda, se os governos locais oferecessem uma educação básica com uma qualidade ao menos razoável. É sim papel da UFS atuar politicamente, tentando desmontar essa estrutura social perversa secular no Brasil e particularmente em Sergipe, mas este compromisso deve ser assumido também por outras esferas de governo e pela sociedade.

De qualquer forma, a política de cotas é, talvez, uma das mais importantes políticas sociais das últimas décadas no país, é uma ação real para enfrentar uma estrutura social engessada e excludente. Que bom que o Brasil consegue avançar em alguns aspectos, ao menos.

*Carlos Franciscato é Jornalista, Doutor em Comunicação e professor da Universidade Federal de Sergipe

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