Vitor Teixeira: “Meu trabalho não é resposta de nada, é pergunta”

Por Júlia Dolce e Norma Odara, Redação Brasil de Fato

Charge - Créditos: Vitor Teixeira

O cartunista Vitor Teixeira iniciou a vida profissional desenhando estampas para a indústria têxtil, após se formar em design gráfico. Com as Jornadas de Junho em 2013, cansado de ter o trabalho subutilizado e com um desejo de publicar trabalhos autorais, Vitor começou a divulgar as primeiras charges e logo ganhou notoriedade na internet.

Com pouco contato com os movimentos populares e tendo estudado em escola particular, o cartunista assume: “Eu era um coxinha. A verdade é essa”. Ele já vinha cultivando uma simpatia pela política de esquerda desde 2011, mas foi após o sucesso da página no Facebook que ele entrou em contato com as organizações populares para oferecer o trabalho.

“Nesse processo todo eu fui me aperfeiçoando, me politizando, compreendendo cada luta e suas especificidades, lendo muita história para me aprofundar mais. É papel de todo comunicador e artista que tem um trabalho opinativo se manter informado”, afirmou o cartunista, em entrevista para o Brasil de Fato.

A partir desta quinta-feira (5), Vitor inicia uma parceria com o Brasil de Fato, criando charges semanais exclusivas. “Conversando com cartunistas mais velhos eles dizem que antigamente tinham que bater na porta dos jornais com o portfólio debaixo do braço. Hoje, o cartunista vai para a internet, começa a publicar e é chamado pelos veículos. É bem legal participar desse processo, que tem sido um grande marco para várias pessoas”, destacou.

Leia a entrevista na íntegra:

É comum entre os cartunistas, mesmo entre os que se reconhecem como de esquerda, reproduzir estereótipos para fazer humor. Você trabalha com uma linha politicamente correta que se opõe a isso. Acredita que é uma tendência?

Na verdade, eu tenho feito um esforço muito grande para subverter um pouco essa lógica. Eu já fiz um grande esforço para me aproximar dos movimentos, mas vejo, com uma grande frequência, eu me podando para agradar. Isso é problemático para quem produz esse tipo de material. Também tem uma coisa de diálogo e conflito com o próprio público, de alguma maneira, você tem que criar contradições. Eu cheguei em um ponto onde eu olhava a minha página e todos os comentários concordavam, acho que, no mínimo, se deve desconfiar disso. Acho que o conflito e a divergência são positivos. É complicado, é uma linha tênue encontrar a veia certa para fazer a metáfora criando contradição e conflito, sem ofensa e sem desrespeitar, mas na rede isso fica muito pulverizado.

Você recebeu ameaças depois de fazer charges criticando a Igreja Universal. Como foi lidar com isso?

Quando chega nesse ponto, eu penso que estou no caminho certo. Porque se as autoridades que tem essa visão de mundo, se as forças de segurança pública desse estado burguês capitalista não estão de acordo com o que eu estou fazendo, então, de fato, eu estou em um caminho muito legal. Você pesa muita coisa. Eu vendi meu carro porque eu estava entrando em uma noia de que toda hora a polícia estava me observando. Minha casa está no nome de outras pessoas. Foram coisas que eu conversei com alguns companheiros e companheiras [também perseguidos], que me deram esse toque, como o André Caramante [jornalista] e a Débora Silva, das Mães de Maio. Não sei se chega nesse ponto comigo, mas eu estou minimamente atento. A gente vive num ambiente informatizado e nossos dados estão em todos os lugares, todo mundo sabe quem eu sou, é muito fácil.

Na história da charge da Universal foi a única vez que eu tive contato com a grande imprensa. Dei entrevista na Jovem Pam, a Globo.com me ligou, todos. Eu entendi que eles gostavam disso porque isso batia no [bispo] Edir Macedo e no império da Record. Mesmo que você esteja fazendo algo em defesa das religiões de matriz africana, no final das contas, um terreiro na Bahia até me ofereceram assessoria jurídica. Mas é muito confuso o que se constrói a partir daí. Eu passei a semana inteira chorando debaixo da coberta em pânico. Até porque no começo os candomblecistas achavam que era uma imagem contra as religiões de matirz africana e eu fiquei sendo metralhado pelos dois lados por uma semana. O alcance da imagem crescendo e eu entrando em pânico.

Veto Popular, por Vitor Teixeira
Veto Popular, por Vitor Teixeira

Além das pautas das charges, qual você acredita que é o seu papel de cartunista com as minorias sociais?

Eu tenho lido muito o Paulo Freire, acho que é imprescindível comprender o que é educação popular. Ele fala em um determinado ponto, em um livro que terminei de ler, que o papel de um intelectual, e eu coloco dentro de intelectual todo acadêmico e todo comunicador, é você pegar o acesso que você teve e de alguma maneira distribuir esse privilégio de acesso à informação formal, e distribuir isso da maneira mais solidária e popular que você puder.

Então eu tento despertar esse viés no meu trabalho, de dividir e tentar levar uma informação que para mim é tão óbvia, tão instintiva, para pessoas carentes de maneira geral. Não requer recurso nenhum, é muito simples e muito gratificante. E eu não levo isso como alguém importante que leva a “sabedoria necessária”, pelo contrário, eu saio entendendo e aprendendo muito mais. É fantástico e inspirador, tenho muita vontade de estimular mais isso. Vou ter uma oficina no Sesc agora, com mais calma. A experiência que eu tive foram nas ocupações das escolas estaduais na época da reorganização do Alckmin, e foram sensacionais.

Fiquei impressionado! Os moleques pareciam que liam Bakunin de madrugada. Eles tinham uma autogestão genial, tudo organizado, eu chegava e tinha gente consertando o encanamento, tudo programado, com segurança. Foi uma das coisas mais lindas que eu já vi na esquerda, no campo popular, pelo menos. Esses moleques são geniais e eu dei minha contribuição, e dessa contribuição aprendi a fazer oficinas e consegui o contato com o Sesc. Eles que me proporcionaram isso. Não sou educador mas tenho me esforçardo para dividir isso. Acho que isso é papel de quem tem consciência no mundo em que a gente vive. Não vou dar esse tipo de formação no Dante Alighiere, o que isso teria de transformador? Vou dar formação nas periferias. Eu fiz uma oficina sensacional em Altamira, no Pará, para ribeirinhos, para indígenas. Foi uma troca de formação sem precedentes. Eu saí alimentado e entreguei algo para eles desenvolverem. Eu faço com muito gosto.

Você teve charges que foram criticadas pela própria esquerda, pelo movimento negro e pelo movimento feminista. Como foi lidar com essas críticas e como é falar de temas que, de certa forma, não te pertencem?

Foi muito interessante o que aconteceu nesse período. Foram três desenhos que eu fiz. Na verdade, começou com o desenho da capa da Elle, e sobre esse desenho quase não houve críticas, parece que todo mundo se segurou. E no segundo desenho, que foi o da fábrica com a mulher montando a boneca, vieram até figuras notáveis que eu acompanho e sigo, como a Djamila Ribeiro, que vieram na voadora.

Achei muito curioso e até hoje tento compreender porque se deu isso, porque aquele primeiro desenho tem totalmente a mesma linha de raciocínio do segundo e do terceiro depois – que foi sobre a Beyonce (colocando tudo no mesmo barco) -, e eu fico tentando compreender isso. A crítica é o capitalismo que, através de suas engrenagens, percebe e consegue se aproximar de lutas das minorias sociais e oferecer uma espécie de paliativos que são sensações de que você conquistou de fato algo. É até difícil encontrar as palavras certas porque, de fato, eu to pisando num terreno que de fato não me pertence.

Tem muitas meninas blogueiras negras, o pessoal LGBT, que faz crítica com recorte de classe em cima disso, que é um pouco o que eu tentei elaborar naquelas charges. Eu acho que é basicamente isso, uma boneca não resolve, representatividade é complicado, é difícil falar isso porque uma garota negra de fato não se vê nas bonecas que são todas brancas. Mas enquanto estrutura do sistema é algo paliativo. Alguns podem considerar uma vitória e uma conquista, e alguns consideram um charme do sistema para com os movimentos sociais, uma espécie de migalha que é colocada como representatividade.

Eu acho que tem gente muito mais qualificada do que eu pra fazer esse tipo de debate. Eu, na verdade, quis retratar a contradição que existe aí porque parte do trabalho do cartunista é apontar contradições. É o nosso trabalho. Brotou uma contradição, eu to pegando ela. Inclusive, as minhas próprias! É contraditório eu falar sobre esse assunto. Eu recebo todas essas críticas, dou total liberdade, não apago elas na página, não entro em conflito nas caixas de comentário, mas eu acho extremamente positivo, apesar de um pouco agressivo.

Achei que não seria assim meu primeiro contato com a Djamila, por exemplo. Ela poderia ter entrado em contato direto comigo e a gente poderia ter conversado sobre o assunto. Mas tá aberto, eu não acho ruim. Fiz uma charge recente sobre a capa da Veja com a Dilma como uma boneca inflável, que é justamente uma crítica à Veja vendo as mulheres desse ponto de vista misógino e muitas feministas me chamaram de misógino. Acho que essas críticas cabem, mas eu não vou deixar de fazer meu trabalho e expor minhas falhas e minhas limitações dado a minha construção social.

Eu me vejo nesse sentido como artista. Artistas expõem falhas também, eu sou comunicador e militante; mas, mais do que tudo, eu tento explorar uma sensibilidade artística para dar minha visão de mundo. Então se eu estou nessa condição social, inevitavelmente, eu vou esbarrar nesses problemas. Tento fazer tudo isso com a máxima humildade, sem arrogância, mas é difícil porque na internet isso não aparece. Meu trabalho não é resposta de nada, é pergunta. Na internet tudo fica muito nebuloso. As pessoas entram e acham que você é um escroto, que está dando risada, e pelo menos da minha parte não tem isso. Qualquer pessoa que me manda mensagem por inbox vai ter uma resposta de aceitação da divergência, exceto discursos de ódio, o que é muito frequente também, inclusive na esquerda.

A cara do Golpe em Sergipe

O que você está esperando dessa parceria com o Brasil de Fato?

Eu sempre costumo falar, quando vou fazer fala sobre comunicação, que estamos em um período de muitas alternativas com a internet, coletivos, grupos que conseguem financiamento, alguns por editais, muita gente correndo atrás. É muito importante porque as grandes redações estão minguando e esses profissionais precisam ir para algum lugar. É até um discurso meio trabalhista de oferecer postos de trabalho, especialmente para essas pessoas que estão se formando de maneira independente na internet. Se todos esses cartunistas que eu conheci tiverem que trabalhar e não tiverem espaço no campo popular, eles vão trabalhar na grande mídia e o campo popular vai perder esse insumo. Eu fiz uma oficina na CUT uma vez e falei isso, que os movimentos sociais e sindicais tem que contratar de algum jeito essa molecada, se não eles vão sair e ter que trabalhar com a direita, ou nem trabalhar, porque estão fechando os postos de trabalho. A pessoa fica em uma sinuca de bico. A gente não vive de like no Facebook. É muito legal ter um monte de seguidores, mas não paga o aluguel no final do mês. Eu fico muito grato com o esforço das entidades porque sei que o financiamento é complicado, ainda mais nesse momento de crise econômica, com esse possível governo reacionário.

“Ponte para o Futuro” vai ser uma ladeira para o inferno, inclusive para esses veículos do campo popular que vão sofrer. A primeira coisa que vão fazer é perseguir os movimentos sociais e trabalhistas. A gente teve muita sorte, eu vivi esse período de abundância de 2002 para cá. Não faltava emprego, tudo em alta, programas sociais mesmo que com timidez, Prouni, distribuição de renda. Claro que olhando do plano revolucionário tudo isso é muito pouco, mas de um ponto de vista social-democrata foram feitos uma série de avanços.

Em comparação as anos 90 neoliberais, isso aqui foi lindo. A gente viveu esse período e o que está por vir é assustador, principalmente para essas entidades que financiam o trabalho independente e progressista. E agora eu vou citar o Cunha: “que Deus tenha piedade dessa nação”! Acho que o Brasil de Fato, como qualquer veículo contra-hegemônico, popular; é mais do que necessário para fazer o enfrentamento direto agora porque vem noite neoliberal e das fritas. Precisamos de muita gente combativa sabendo o que está fazendo, uma análise de conjuntura certeira, não dá para errar mais. Da minha parte vou me dedicar tanto dentro daqui quanto fora para fazer enfrentamento. Espero que os dirigentes dos meios de comunicação tenham coragem para também fazer esse enfrentamento.

Edição: Camila Maciel e Simone Freire.

Compartilhar

Deixe uma resposta