Você está sendo governado por mentiras

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Não olhe, ouça ou sinta. Eles exibirão, narrarão e transmitirão por nós. É melhor acreditar. Mas ainda que olhe, ouça ou sinta, não pense. Eles julgarão por nós. Caso pense, não revele. Se revelar, será perseguido pelo ódio e linchado pela calúnia. Essa é a nova ordem. Os golpes militares das décadas de 50, 60 e 70 na América Latina – apoiados pelos Estados Unidos – foram se transformando em golpes que não tem mais como elemento principal a força das armas, mas a força da mentira.

O ministério público de Honduras pediu a prisão do presidente Manuel Zelaya em 2009, com base em uma acusação pelo suposto crime de “traição à pátria”. Zelaya havia organizado uma consulta popular, de caráter não vinculativo, questionando se a população concordava em votar nas eleições seguintes sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O pedido do ministério público foi apoiado pela imprensa hondurenha, acolhido pela suprema corte daquele país e acatado pelo exército. A internet e a telefonia foram cortadas no dia da prisão do presidente, que ocorreu dois dias antes da consulta popular. Sem que houvesse previsão legal, Zelaya foi deposto da presidência e deportado pelos militares.

A imprensa hondurenha chegou a divulgar que a ONU classificava a destituição de Zelaya como “constitucional e sob as leis do país”, o que foi desmentido pelo secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, que condenou a “interrupção da ordem democrática e constitucional”. Por sua vez, a posição oficial do presidente Obama foi repudiar e classificar como golpe de estado o que ocorreu em Honduras. Porém, sete anos depois, o vazamento de e-mails particulares de Hillary Clinton, então secretária de Estado dos EUA, levaram-na a admitir publicamente sua participação no golpe contra Zelaya.

No Paraguai, o golpismo utilizou o Massacre de Curuguaty – que teve 11 manifestantes e 6 policiais mortos – para atribuir responsabilidade ao presidente Fernando Lugo e pedir seu impeachment. A Câmara dos Senadores depôs o presidente do país em um processo que durou pouco mais que 24 horas, iniciado 6 dias após o massacre. Os tribunais do Paraguai consideraram o processo constitucional, apesar do incontestável cerceamento de defesa. Durante o curso do golpe, a mídia apresentou incansavelmente uma narrativa segundo a qual Fernando Lugo estimulou a “violência dos camponeses”.

O Promotor de Justiça responsável pela investigação do massacre acusou 14 camponeses sem nenhuma prova. Eles foram condenados sem considerar a perícia que demonstra que os policiais foram mortos por tiros certeiros de armas de alto calibre, não tendo sido encontrada uma arma sequer desse tipo com os camponeses. O vazamento pelo Wikileaks de um documento da embaixada dos Estados Unidos em Assunção, com data 3 meses anterior ao massacre, revelou que estava sendo arquitetado um plano para o golpe contra Lugo via processo político, mas que carecia ainda de um pretexto.

Em outros países latino-americanos, como Argentina e Bolívia, a mídia e as denúncias caluniosas vêm servindo para influenciar decisivamente o resultado de votações. O caso extremo é o da Venezuela, onde a oposição vem praticando atentados terroristas à luz do dia contra os apoiadores de Maduro, com a conivência da grande mídia nacional e internacional. A Folha de São Paulo declarou que tratará Maduro como um ditador, invertendo a lógica entre agredido e agressor da democracia. A linha da Rede Globo, que se tornou expert em apoiar golpes, segue o mesmo tom.

Vimos de perto o golpe contra Dilma Rousseff. Os abusos crescentes cometidos pela Lava Jato, potencializados ao extremo pela grande mídia, criaram o clima para a ruptura constitucional no Brasil. O golpe continua em marcha, tendo como principal suporte uma série de acusações não provadas contra Lula. Enquanto isso, acompanhamos na semana passada a vergonhosa votação sobre o prosseguimento da denúncia contra Temer, que foi arquivada pelo mesmo congresso que afastou Dilma pelas supostas “pedaladas”.

Em todos os casos, os alvos são os mesmos: governos que ousaram implementar programas de redistribuição de renda a favor dos trabalhadores e que, em maior ou menor medida, deram passos rumo a um desenvolvimento nacional soberano. Em ato falho durante pronunciamento em Nova York, Michel Temer reconheceu que Dilma sofreu o impeachment porque se recusou a seguir o programa neoliberal que ele vem implementando, com pilhagens contra a educação, a saúde, direitos trabalhistas e previdenciários. Em outra ocasião, admitiu que Eduardo Cunha só começou o impeachment de Dilma por vingança pessoal, já que ela não articulou votos contra a sua cassação.

Temer é a mentira da vez que nos governa no Brasil e outras tantas são contadas aos latino-americanos. A ideia é sempre a mesma: serem os tiranos desses povos. Olhe, ouça, sinta. Não deixe que eles julguem por você. Quando assumiu a presidência, Michel Temer exortou os brasileiros com seu lema: “Não pense em crise, trabalhe”. Desobedeça. Pense. Aja em favor do seu povo.

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